"Falta coisa pouca mas nunca mais acabam as obras"

Atrasos na reconstrução das casas que arderam não deixam sarar ferida aberta pelo incêndio de Pedrógão.

18 de dezembro de 2018 às 01:30
Rosalina Rosa na cozinha da casa nova, onde falta ligar os eletrodomésticos Foto: Ricardo Ponte
Rosalina Rosa na cozinha da casa nova, onde falta ligar os eletrodomésticos Foto: Ricardo Ponte
Rosalina Rosa na cozinha da casa nova, onde falta ligar os eletrodomésticos Foto: Ricardo Ponte
Café Retiro do Lino é da idosa e do filho, situando-se em frente à casa Foto: Direitos Reservados
Cães guardam a moradia situada junto à EN236-1, onde ainda são visíveis os efeitos do incêndio de junho de 2017 Foto: Ricardo Ponte

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É o segundo Natal que Rosalina Rosa e o filho Adelino passam sem casa. Aquela onde sempre viveram, na aldeia da Figueira, em Pedrógão Grande, foi destruída pelo incêndio de junho de 2017, e as obras de reconstrução nunca mais ficam prontas.

Na Figueira não é caso único, há outras casas de primeira habitação ainda em obras, situação que se repete no concelho de Castanheira de Pera. Enquanto isso, casas de férias foram reconstruídas, num processo envolvido em suspeitas, que está a ser investigado pela Polícia Judiciária do Centro e já tem dez arguidos.

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Rosalina Rosa, de 80 anos, nem quer ouvir falar dos vizinhos que só vê nas férias e já têm as casas prontas a habitar. Está mais preocupada com as obras intermináveis e as falhas na sua casa, na rua dos Dias, em frente ao seu café, o Retiro do Lino.

Por fora, a casa parece pronta, mas a cozinha "não está montada", já que parte dos novos eletrodomésticos, como o televisor, permanecem encaixotados. "Nunca mais vêm cá ligar a televisão, deram-nos uma grande e bonita, mas dentro da caixa não nos serve de nada", diz Adelino Rosa, 54 anos.

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Mas o principal problema está na casa de banho, onde Adelino não consegue tomar banho, pois o espaço para entrar no polibã é demasiado estreito. "Não caibo lá, já falei com o empreiteiro e ele veio cá e percebeu que também não consegue entrar no espaço do duche", conta Adelino Rosa, enquanto olha com tristeza para o canto ao lado do polibã. "Podiam fazer o duche de parede a parede e assim já tomava banho lá dentro", lamenta.

Também falta uma porta no piso de cima, onde estão os dois quartos - únicas divisões da casa já ocupadas e usadas pela família. "Por coisa pouca nunca mais vêm acabar as obras e assim não dá para arrumar nada", lamenta Rosalina, já sem paciência para mais demoras.

"Vem aí outro Natal e nada me faz lembrar festas, não tenho alegria para festejos", diz. 

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Doze acusados por 694 crimes

Corrupção e burla entre as suspeitas

O inquérito em que se investigam irregularidades na reconstrução e reabilitação de casas ardidas está em segredo de justiça, mas já se sabe que as suspeitas apontam para os crimes de corrupção, burla qualificada, participação económica em negócio e falsificação de documento. 

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PJ do Centro investiga reconstrução

Os inspetores fizeram buscas e apreenderam documentação, que está a ser analisada. Já foram constituídos 10 arguidos, todos proprietários de casas de férias reconstruídas como se fossem de primeira habitação.

Casa na ‘estrada da morte’ ainda nem telhado tem

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Uma das casas ainda a aguardar obras de reconstrução situa-se junto à EN236-1, que ficou conhecida como ‘estrada de morte’ por ali terem ocorrido 47 mortes, já no concelho de Castanheira de Pera.

A família Fernandes continua num alojamento temporário, porque a moradia ainda nem telhado tem. Durante mais de um ano, a estrutura da casa que sobreviveu às chamas esteve coberta por um toldo azul - oferecido por uma emigrante portuguesa na Noruega – entretanto retirado.

As obras já tiveram início, depois de um atraso motivado também por alterações resultantes da ampliação da casa. A reconstrução está a ser feita através de donativos, que começaram a escassear após terem surgido suspeitas de mau uso da ajuda solidária.

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"Assim que começaram as dúvidas, acabou-se o dinheiro e até os voluntários que passavam aqui os fins de semana a ajudar as pessoas, sobretudo os idosos, deixaram de aparecer", diz António Pedro, morador em Castanheira de Pera, adiantando que agora até chega a "sentir vergonha" de dizer que vive perto de Pedrógão Grande.

Ana Fonseca, residente na vila, acusa: "Estes compadrios são muito feios, sobretudo porque deixaram de fora algumas pessoas que precisavam e continuam a precisar de ser ajudadas." Certo é que a família vive com dificuldades e, no dia do incêndio, teve de fugir para escapar. Salvaram a vida, mas perderam a casa e o atraso na reconstrução é uma ferida por sarar.

Na altura, Nuno Fernandes, um dos moradores, lamentou a sua sorte ao CM: "O fogo queimou-me tudo e não há meio de voltar para a minha casa", afirmou. 

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Meio milhar de casas afetadas pelo incêndio em vários concelhos

Segundo dados da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, um ano depois, todas as casas de primeira habitação estavam concluídas ou em obras. Para a reconstrução das casas de férias foi aberta uma linha de crédito para os municípios, de dez milhões de euros. 

PORMENORES 

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Atingiu 53 mil hectares

O incêndio de Pedrógão Grande deflagrou a 17 de junho de 2017, na aldeia de Escalos Fundeiros, e alastrou a uma área calculada em 53 mil hectares, que se estende por vários concelhos.

66 mortes e 253 feridos

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Na fuga das chamas, registou- -se a morte de 66 pessoas e ferimentos noutras 253, sete das quais sofreram queimaduras graves e ainda estão em recuperação.

Seguiam de carro

Mais de dois terços das vítimas mortais (47) seguiam de carro e ficaram cercadas pelas chamas na EN236-1, entre Castanheira e Figueiró dos Vinhos. Os carros mais velhos foram os que ofereceram mais resistência.

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Indemnizações

O conselho criado para a atribuição de indemnizações às vítimas dos incêndios de junho e outubro de 2017 fixou em 70 mil euros o valor mínimo para privação de vida.

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