Operação Marquês: Suspeito de comprar casa por Sócrates tinha interesse na obra

Em causa está a remodelação de um apartamento de luxo na capital francesa comprado em 2012 por Carlos Santos Silva, mas que, para o MP, foi adquirido pelo chefe de Governo entre 2005 e 2011 com fundos provenientes de atos de corrupção.

19 de maio de 2026 às 18:25
José Sócrates Foto: António Cotrim/Lusa
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O advogado que atuou como intermediário na remodelação do apartamento em Paris alegadamente comprado pelo antigo primeiro-ministro José Sócrates através de um testa-de-ferro assegurou esta terça-feira que este último sempre mostrou interesse na obra.

"Noventa por cento das vezes, o engenheiro Carlos Santos Silva respondia-me na hora. [...] Gostava sempre de ver outra vez a proposta e os valores", afirmou Gonçalo Trindade Ferreira, interrogado na condição de arguido no julgamento do processo Operação Marquês, em Lisboa.

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Em causa está a remodelação de um apartamento de luxo na capital francesa formalmente comprado em 2012 por Carlos Santos Silva, mas que, para o Ministério Público, foi na realidade adquirido pelo chefe de Governo entre 2005 e 2011 com fundos provenientes de atos de corrupção.

O alegado desinteresse do empresário pela obra, suportado pela existência de interceções telefónicas em que José Sócrates expressa opiniões sobre o projeto, tem sido um dos argumentos da acusação, mas, esta terça-feira, Gonçalo Trindade Ferreira, que ao contrário de Carlos Santos Silva lidou diretamente com o arquiteto, rejeitou que esse distanciamento existisse.

O advogado recordou ainda que chegou a ser repreendido por a ex-mulher do antigo primeiro-ministro, Sofia Fava, ter visitado a habitação enquanto decorria a empreitada.

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"Levei na cabeça. O engenheiro [Carlos Santos Silva] disse: 'sou eu que dou as ordens, ninguém entra naquela casa'", contou, após ser confrontado com declarações anteriores em que mencionara a visita de Sofia Fava, alguém que garantiu não saber, à data, quem era.

Gonçalo Trindade Ferreira trabalhou há mais de uma década para um grupo empresarial de Carlos Santos Silva e responde por três crimes de branqueamento de capitais: dois por ter tratado da documentação de compras de casas por parte do patrão e um relativo a 200 mil euros guardados num cofre bancário, que alegou pertencerem àquele empresário.

"Em momento algum senti que estava a cometer o que quer que seja. Estava a cumprir o meu dever", salientou esta terça-feira o advogado.

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José Sócrates, de 68 anos, Carlos Santos Silva, de 67, Sofia Fava, de 56, e Gonçalo Trindade Ferreira, de 50, são quatro dos 21 arguidos no processo, que têm, em geral, negado a prática dos 117 crimes económico-financeiros que lhes são imputados.

O ex-governante socialista responde, entre outros crimes, por três corrupção, por ter, alegadamente, recebido dinheiro para beneficiar o grupo Lena, o Grupo Espírito Santo (GES) e o 'resort' algarvio de Vale do Lobo.

O julgamento começou em 03 de julho de 2025 no Tribunal Central Criminal de Lisboa e os ilícitos terão sido praticados entre 2005 e 2014.

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