Familiares de Francisco Augusto da Silva Rocha enfrentam em tribunal a Câmara de Aveiro.
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A família do arquiteto Francisco Augusto da Silva Rocha enfrenta em Tribunal a União das Freguesias de Glória e Vera-Cruz em delegação de competências da Câmara de Aveiro, por esta ter "violado e vendido em hasta pública" o jazigo de família onde estava depositado a título perpétuo um dos expoentes da arquitetura Arte Nova portuguesa e europeia.
"Além do meu bisavô, no jazigo estavam as urnas de seis dos principais elementos da minha família materna registados no livro do cemitério central, entre outros. Já avançámos com um processo junto do Tribunal Administrativo e Fiscal de Aveiro e com uma denúncia ao Ministério Público.
Esta última foi arquivada e decidimos abrir a Instrução, que está a decorrer", disse, ao CM, Maria João Fernandes, crítica de arte e bisneta de Silva Rocha que, entre outros projetos, foi o responsável pela Casa Mário Pessoa, atual Museu de Arte Nova de Aveiro e ex-líbris da arquitetura Arte Nova.
Segundo Maria João Fernandes, o sítio exato onde foram sepultados os restos mortais dos seus familiares está por determinar. "Sabemos, no entanto, que na mesma data foram todos lançados na terra numa única sepultura com características de vala comum e em circunstâncias por apurar. Alguns dos restos mortais teriam sido sepultados mantendo apenas os invólucros de metal das urnas e outros em sacos. É isto o que consta nos processos."
A bisneta de Silva Rocha adianta, também, que o caso remonta ao início de 2014, quando a União das Freguesias de Glória e Vera-Cruz decidiu pela venda em hasta pública do jazigo, depois de declarado o abandono, o que não se verificava e está a ser impugnado em tribunal, alegando que se encontrava em risco de ruir.
"Não fizeram qualquer tentativa para localizar os familiares, nem o jazigo estava ou está em risco de ruir. Foi vendido com os restos mortais no seu interior.É inacreditável que o tenham feito. Estamos a falar do Cemitério Central de Aveiro, de grande importância histórica e arquitetónica, e de Silva Rocha autor do Centro Histórico da cidade por sua causa considerada Capital da Arte Nova em Portugal e candidata a Capital Europeia da Cultura. E mais – na fachada da capela/jazigo estava inscrito e em local bem visível que pertencia a João Pedro Soares, sogro de Silva Rocha. João Pedro Soares foi considerado o maior benemérito de Aveiro do seu tempo, no final do século XIX. Foi, por exemplo, o patrocinador do hospital e da escola industrial."
A retirada do jazigo dos restos mortais de toda a família de Silva Rocha realizou-se em março de 2015 sem que tivesse sido feita qualquer diligência para localizar os familiares.
"Foram posteriormente feitas várias tentativas de diálogo pela família e nenhuma resposta foi obtida dos responsáveis pelo poder autárquico, nomeadamente do presidente da câmara, Ribau Esteves", observou Maria João Fernandes, acrescentando que não foi esclarecida nas duas intervenções públicas que efetuou na Assembleia Municipal de Aveiro, em dezembro de 2015 e de 2017.
"Os familiares de Silva Rocha lutam agora pela dignificação da sua memória e pelo regresso dos seus restos mortais e da sua família à sua última morada, o jazigo de João Pedro Soares de onde foram inexplicavelmente retirados", concluiu.
Perfil
Francisco Augusto da Silva Rocha (1864-1957) nasceu na Mealhada e faleceu em Aveiro. Foi professor de Desenho e diretor da Escola de Desenho Industrial e arquiteto responsável por vários edifícios de Aveiro. Em 1896 casou com Olinda Augusta Soares, filha de João Pedro Soares, o maior benemérito de Aveiro no seu tempo, que adquiriu o Edifício dos Arcos.
Autarquia reconhece "problema"
A Câmara de Aveiro reconheceu ao CM que "existe um problema" entre Maria João Fernandes e a Junta da União de Freguesias de Glória e Vera-Cruz, gestora do cemitério, por causa do jazigo da família de Silva Rocha.
A autarquia salientou que "procurou interceder, ainda antes de iniciar o processo judicial, no sentido de existir um acordo entre as partes, o que não se revelou possível" e observou que "nas ações de gestão cultural a câmara sempre honrará a Arte Nova e o arquiteto Silva Rocha, tendo aliás na sua toponímia a Alameda Silva Rocha, numa das zonas mais nobres da cidade". O CM contactou também a União das Freguesias de Glória e Vera-Cruz, que não respondeu aos emails que lhe foram enviados.
As obras do Gaudí português
Silva Rocha deixou um trabalho ímpar, que levou o historiador de arte José-Augusto França a classificar Aveiro como capital da Arte Nova em Portugal.
Entre outras obras, são do traço de Silva Rocha o antigo edifício da Escola Industria Fernando Caldeira (1903), hoje sede da assembleia municipal e conhecido como antiga capitania, a casa que foi de Mário Pessoa (1908), e atual Museu de Arte Nova, a casa onde viveu Lourenço Peixinho (hoje Fundação Jacinto de Magalhães) e a Casa de Francisco Maria Simões (1914), em Salreu. Foi também responsável pelo Balneário de Espinho (1915) e entre 1904-1906 fez o projeto da sua casa, na rua do Carmo.
Personalidades como o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o arquiteto Siza Vieira e o historiado de Arte José-Augusto França assinaram uma petição para dar o nome Silva Rocha ao Museu de Arte Nova.
Candidata a Capital Europeia da Cultura
Terreno do jazigo comprado em 1880
O jazigo no Cemitério Central de Aveiro foi erguido no início do séc.XX, num terreno comprado por João Pedro Soares em 1880.
Vendido a família de vereador da câmara
Vendido a família de vereador da câmaraO CM sabe que a 24 de fevereiro de 2014 o jazigo n.º 32 foi vendido em hasta pública à família de um vereador da Câmara de Aveiro.
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