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Adorava um bom mistério e sobretudo escrever, divulgar e conversar. Nunca foi polícia, mas ajudou muitos com a sua perspicácia e entendimento profundo dos segredos psicológicos do criminoso. Artur Varatojo, publicista e depois advogado, ‘Inspector Varatojo’ para toda a gente, interessava-se por crimes porque a sua paixão pelos romances policiais e, em primeiro lugar, pela escritora Agatha Christie, lhe despertou a atenção para os factos que existem antes da ficção. E, como excelente comunicador, as suas crónicas sobre temas criminais eram a nascente das histórias e antologias com que saciava a curiosidade do público que o viu, ouviu e leu na televisão, na rádio, em jornais e revistas.
O Inspector Varatojo não era um caçador de criminosos. Tinha sobre o assunto uma perspectiva assente em valores sólidos de segurança individual e vida pacífica. Estava do lado da lei, mas olhava para o criminoso sempre com humanidade. Era visitante assíduo das cadeias, onde fazia palestras e falava com presos. Com o espírito de misericórdia de quem tem fé em Deus, dizia como Jesus à adúltera: “Vai e não tornes a pecar.”
Era muito provavelmente esta compaixão para com os outros que o levava a afirmar – tal como confessou, em 2003, em entrevista ao CM, que não gostaria de ser um verdadeiro inspector. “Era capaz de ter interesse em descobrir o criminoso, mas assim que o tivesse diante de mim passava a ter pena dele.”
Como comercial da empresa Fermentos Holandeses e depois profissional de agências de publicidade, afinou os talentos de comunicador para chegar aos maiores públicos. Fazia livros para as pessoas lerem à medida do tempo disponível. Andava sempre a fervilhar de ideias e até inovou quando passou pela direcção do seu Sporting. Muito antes de se reconhecer o conceito, já era um comunicador multimédia. E tratava sempre de casos reais. Contava-os, comentava-os e, às vezes, metia-se neles para resolvê-los. Quarenta anos depois do rapto de uma bebé à porta do cemitério do Alto S. João, em Lisboa, em 24 de Março de 1955, conseguiu deslindar o mistério e encontrar pessoalmente a raptada, com o apoio de um programa de Raul Durão na RTP e do jornal ‘A Capital’. É uma das suas histórias fascinantes que a partir de agora fica só em papel. Como ele queria mais, já que não gostava de mandar ninguém para a prisão.
SÉRIO, AMIGO E SPORTINGUISTA
Artur Agostinho conheceu Artur Varatojo na RTP. “Era ele o homem que criava os concursos que apresentei”, recorda o antigo apresentador de televisão, admitindo sentir saudades das horas de trabalho que passaram juntos e em que criaram uma “grande amizade e cumplicidade”.
“Era um homem muito sério, que se dedicava de corpo e alma ao trabalho”, faz ainda questão de sublinhar o director do ‘Jornal do Sporting’, que partilhava com Artur Varatojo a paixão pela camisola da equipa ‘leonina’. Foi também o facto de ser adepto do clube de Alvalade que permitiu a Varatojo estreitar relações com João Rocha. “Já nos conhecíamos antes, mas o facto de o chamar a colaborar connosco, como dirigente, sedimentou a nossa amizade”, adianta o antigo presidente do Sporting, que não poupa elogios a Artur Varatojo. “Era profissional em tudo, uma pessoa séria, amiga do seu amigo e com quem dava gosto conviver”, diz.
ESTUDIOSO
Artur Varatojo nasceu na freguesia de Santa Catarina, em Lisboa, há 80 anos. Era licenciado em Economia e Finanças e em Direito. Obteve ainda o curso Superior de Medicina Legal. Morreu na noite passada, no Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide.
INTERNACIONAL
Era membro de várias organizações internacionais ligadas à criminologia, incluindo a norte-americana ‘Mystery Writers’ e a Sociedade Internacional de Criminologia.
AGATHA CHRISTIE
Os esforços para compreender as causas que levam a cometer um crime levaram-no a entrevistar a escritora Agatha Christie e Roger Moore, então protagonista da série ‘O Santo’.
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