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Agente da PSP mata a mulher a tiro

Maria José Crisóstomo foi chamada à PJ domingo de manhã. Só quando chegou às instalações em Lisboa conheceu a razão do interrogatório: a sua vizinha e amiga tinha sido morta a tiro pelo marido, agente da PSP. O crime ocorreu duas horas depois de Maria José ter abandonado a casa do casal, em Santa Iria de Azóia, Loures.

05 de julho de 2005 às 00:00

Além de ser a sua cabeleireira, Paula Covas, de 36 anos, era também a melhor amiga de Maria José. Casada com um polícia da Esquadra de Sacavém, Rui Covas, a cabeleireira convidou a amiga e o marido para jantarem na sua casa no Bairro Estacal Novo, sábado à noite.

“Começámos por fazer um churrasco no pátio, mas como ficou frio pusemos a mesa no salão, que funciona por baixo da casa deles”, disse ao Correio da Manhã Maria José, de 38 anos.

“Bebemos uns copos e, à 01h30, eles queriam que fôssemos sair mas nós fomos para casa”, recorda.

Maria José regressou para a sua casa, no lado oposto da rua. Paula perfumou-se, arranjou-se e saiu com o marido para o Parque das Nações.

Pelas 03h30 cai um telefonema no 112. Uma voz nervosa diz ter efectuado um disparo acidental com um revólver. A bala, segundo disse, passou de raspão na cabeça da sua mulher.

O INEM chegou à casa do casal de imediato e deparou-se com a mulher morta no chão. A bala não tinha apenas passado de raspão: estava alojada na cabeça de Paula que teve morte imediata.

A GNR chega e o polícia diz em desespero que “estava apenas a mostrar a arma a mulher”.

Mas o ambiente demonstra mais. A PJ é chamada à vivenda número 12 e a loiça que cobria a mesa do jantar estava toda partida: sinais de uma discussão violenta.

O revólver pessoal que o polícia utilizou também não disparou apenas uma bala. O tambor da arma exibia duas cápsulas vazias. A outra bala disparada furou a porta da cozinha e foi alojar-se na porta do frigorífico.

“Não acredito que tenha sido um acidente. Ela já conhecia muito bem as armas, ele não precisava de as mostrar”, disse Maria José.

A amiga de Paula sabe do que fala: por diversas vezes, viu nódoas negras nos braços da vítima. “Eu perguntava-lhe o que se passava e ela dizia que tinha sido o Rui na brincadeira. Ela encobriu muita coisa”, disse. “Era uma excelente pessoa, alegre, faladora. A ele não tenho nada a apontar. Apenas o facto de ser muito nervoso”, acrescentou.

No Bairro do Estacal Novo, os moradores estão abalados. Habituaram-se a ver Paula e Rui como um casal normal: “Tratavam-se com carinho”, diz Isabel Russo, de 56 anos. Os vizinhos interrogam-se sobre o que se terá passado entre a 01h30 e as 03h30.

Na noite do crime ninguém ouviu os disparos. Nem o aparato policial chamou a atenção da vizinhança. Souberam de manhã, quando alguns moradores foram contactados pela PJ para prestarem declarações.

Paula e Rui chegaram ao bairro há seis anos, mas eram casados há 15. “Vieram do Bairro da Encarnação, nos Olivais, para viver na casa do pai dele”, conta a vizinha Isabel Russo.

O Tribunal de Loures decidiu mandar o agente Rui Covas em prisão preventiva. O funeral de Paula Covas ainda ainda não tem dia marcado: o corpo vai ser autopsiado.

ELE TINHA PROBLEMAS COM O ÁLCOOL

Rui Covas, de 36 anos, é pai de uma rapariga de 16 anos, fruto de um anterior relacionamento. Entrou para a II Divisão da PSP na década de 90. “Foi um bom profissional”, disse ao CM um colega da Divisão dos Olivais. “Mas começou a ser alvo de processos disciplinares e agarrou-se ao álcool”, acrescentou. Alguns dos processos de que foi alvo prendem-se com o uso abusivo da arma de fogo. “Ele era muito impulsivo”, diz a mesma fonte. O número de processos aumentou e o agente acabou por ser afastado do serviço operacional, para fazer apenas serviço na esquadra. Em desespero, dizem os colegas, meteu-se no álcool. “Teve problemas de saúde e andava a tomar medicamentos. Até engordou”, acrescentou o colega. “E nunca lhe tiraram a arma”, disse. Uma decisão que o Sindicato dos Profissionais de Polícia contesta. “Os serviços da PSP não estão sensibilizados para o alcoolismo, que é uma doença. Resolvem o problema com processos disciplinares em vez de os acompanharem e lhes retirarem as armas”, diz António Ramos. “Esta família podia ter sido protegida”, afirma.

AGENTES FORA DA LEI

BATEU COM A CABEÇA

A 31 de Agosto do ano passado, um agente reformado da PSP matou involuntariamente a mulher, durante uma discussão, no Forte da Casa, Vila Franca de Xira. Após uma troca de agressões entre o casal, a mulher terá sido empurrada, caiu e bateu com a cabeça. Teve morte imediata.

PRESO POR AGRESSÃO

Um agente da PSP de Lisboa foi detido por colegas da Divisão de Investigação Criminal, a 26 de Janeiro, depois de ter sido identificado como responsável pela agressão de um homem à porta de um bar.

CARRO ROUBADO

Quando saiu de casa, em Chelas, às 09h00 de 18 de Janeiro, um agente da PSP de Lisboa, de 32 anos, foi surpreendido por colegas ao entrar para um luxuoso Audi A8 de matrícula espanhola e furtado meses antes nas imediações de Madrid. O agente estava colocado na Direcção Nacional de Polícia.

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