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Correio da Manhã

Portugal
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“Agora faz comércio à conta do crime”

Familiares de seis empresários assassinados revoltam-se com livro de Militão.
2 de Março de 2010 às 00:30
“Agora faz comércio à conta do crime”
“Agora faz comércio à conta do crime” FOTO: Marcos Campos/Jornal O Povo

A 12 de Agosto de 2001 seis empresários portugueses desembarcaram em Fortaleza, Brasil, com a promessa de umas férias de sonho e de oportunidades de negócio. Mal sabiam que tinham sido atraídos pelo amigo de um deles, Luís Militão, para uma morte macabra. Os seus corpos foram descobertos enterrados num bar/boite da Praia do Futuro, doze dias depois – e Luís Militão acabou detido. Cumpre 150 anos de prisão.

Agora, Luís Militão, que agiu com quatro cúmplices, que iam assassinando os seis portugueses à medida que o dinheiro era levantado das suas contas bancárias (num total de 30 mil euros), decidiu contar a história no livro ‘Morrer na Praia do Futuro – A Verdade de Luís Miguel Militão sobre o Caso de Fortaleza’.

Oito anos e meio depois da tragédia, que continua bem presente na memória das famílias e de muitos portugueses, este livro acaba por apanhar todos de surpresa. 'Penso que esse livro não deve ser comercializado de maneira alguma, pois o que ele fez foi desumano. Esse Luís Militão destruiu a nossa família e cada dia que passa é pior que o anterior', lamentou ontem ao CM Clotilde Costa, irmã de uma das vitimas, Joaquim Manuel Costa, 49 anos, casado, pai de quatro filhos e o mais velho de seis irmãos.

'A partir desse momento nunca mais tive paz na minha cabeça. O meu irmão está numa gaveta do cemitério do Seixal e esse Militão, que não conheço nem quero, ainda quer dar numa de escritor', disse Clotilde, que tem apenas um desejo. 'Já que não podemos ter o meu irmão de volta, ao menos deixem-nos arrumar este assunto. Um livro agora só vai servir para que tudo isto volte a ser falado, o que vai trazer mais sofrimento a todos os familiares e amigos'.

A revolta com este livro estende-se a outras famílias, caso da de Joaquim Fernandes. 'Depois de os matar ainda quer ganhar dinheiro à conta deles? Era cortar-lhe o pescoço!', reage Neves Silva, sogra de mais uma das vítimas de Militão, ao ser confrontada com a publicação do livro. Mais de oito anos após o crime, na aldeia de Parcerias, Ourém, onde residia o empresário, todos reagem com muita emoção e revolta. 'Ele devia era ser massacrado e abatido', comentam dois homens, que pedem para não ser identificados.

Em Almezinha, Pombal, onde moravam os cunhados Joaquim Silva Mendes e Manuel Joaquim Barros, também assassinados, a reacção é semelhante. 'Esse livro nem de graça o queremos, muito menos o compramos. Dar dinheiro a um assassino!? Nem pensar!', concordam Francisco Antunes e Manuel da Silva, amigos dos empresários.

Há quem defenda que o livro nunca deveria ser publicado. 'É fazer comércio à conta do crime, de quem tanto sofreu', considera Cecília Pedro, amiga das famílias das vítimas. 'Só quem conhece as esposas sabe pelo que têm passado', garante Cecília Pedro, acrescentando que 'não é justo vir agora reavivar a sua dor'. As viúvas recusaram ontem prestar declarações, dizendo só, entre lágrimas, que ainda não conseguem falar sobre o assunto.

PORMENORES

FILHO DE ‘TONI’ NÃO FALA

Confrontado com a publicação deste livro, Jorge Rodrigues, filho da vítima António Correia, conhecido por ‘Toni’, não quis falar. 'Peço desculpa mas não quero falar desse assunto'.

POMBAL E OURÉM

Quase todos os familiares directos das três vítimas dos concelhos de Pombal e Ourém continuam a optar por falar o menos possível sobre o ‘Massacre de Fortaleza’.

ATRACÇÃO TURÍSTICA

Nos meses seguintes à tragédia, o bar/boite Vela Latina transformou-se num local de atracção turística, indignando até as próprias autoridades e a população de Fortaleza.

MALA COM ROUPAS ENSANGUENTADAS

Clotilde Costa não consegue ver fotos e vídeos do irmão, porque a 'dor é muita'. No entanto, não esquece um episódio em todo este processo. 'Dias após o crime devolveram-nos uma mala com roupas ensanguentadas'.

O LIVRO

'A morte era inevitável, pois só assim se garantia que não haveria ninguém para nos identificar'

'Quando a primeira vítima atendeu o telefone, recebeu uma paulada do Leôncio e perdeu os sentidos. Levaram o corpo e atiraram-no para dentro do buraco aberto atrás da porta da cozinha'

'A forma para matar o quarto indivíduo foi diferente das anteriores, porque a farsa do telefone já tinha sido descoberta pelos reféns'

'Fui ter com os portugueses e pedi-lhes os cartões de crédito e os códigos. (...) O rosto deles era de pânico e senti que alguns desconfiavam do meu envolvimento no sequestro'

Luis Militão, o assassino

MATA AMIGO QUE LHE EMPRESTOU DINHEIRO

Militão conta que o plano surgiu depois de ser contactado por um dos empresários de quem era amigo e a quem devia 2500 euros. Como não tinha dinheiro para lhe devolver surgiu a ideia do sequestro e do homicídio. Quando a vítima o avisou que iriam seis de férias, 'não pensámos que seriam mais pessoas mortas, mas mais dinheiro nos nossos bolsos'.

DIFICULDADES FINANCEIRAS PARA JUSTIFICAR CRIME

O mandante do crime justifica as mortes com as dificuldades financeiras que enfrentava. Descreve ainda a fuga após o crime, acompanhado pela mulher grávida, e recorda os telefonemas que recebia das famílias das vítimas, preocupadas com o desaparecimento. 'Dizia-lhes que eles tinham ido conhecer uma praia paradisíaca', sem cobertura de rede.

12 DIAS DE ANGÚSTIA E UMA VIDA DE REVOLTA

A angústia das famílias durou 12 dias – o tempo que os seis empresários estiveram desaparecidos – e manteve as polícias em alerta máximo. A verdade brutal chegou a 24 de Agosto de 2001, quando foi detido Luís Militão, o mandante do crime. Tinha planeado a tragédia para roubar os portugueses, seus compatriotas, e contratado cúmplices para os executar. A violência das imagens e os relatos dos assassinos, transmitidos pelos media brasileiros de forma pouco usual em Portugal, contribuíram para adensar a revolta das famílias de Pombal, Seixal, Montijo, Barreiro e Ourém. A forma bárbara como os seis empresários foram atraídos para a morte, executados, enterrados ainda vivos e cobertos com uma lage em cimento – junto a um bar/boîte na Praia do Futuro – deixou o País chocado. Um estado de espírito que viria a reflectir-se nos funerais realizados em Setembro de 2001, que juntaram milhares de pessoas solidárias. Os familiares das vítimas tentaram ser o mais reservados possível sobre os acontecimentos e falaram o mínimo possível aos media. Uma atitude que ainda hoje mantêm. É por isso que agora, com a publicação do livro escrito pelo assassino e o reavivar da tragédia, dão a entender a sua revolta. À semelhança dos amigos e vizinhos dos empresários massacrados.

ENTERRADOS VIVOS NUM BURACO, QUE DEPOIS FOI CIMENTADO

Quando os seis portugueses viajaram para o Brasil, a convite de Luís Militão, que conhecia um deles, estavam convencidos de que iriam conhecer o paraíso: o Nordeste brasileiro. Mas ao chegarem, a 12 de Agosto de 2001, foram agredidos à paulada, a tiro, à facada e enterrados vivos numa vala numa boîte, na Praia do Futuro. O arquitecto do plano foi Luís Militão, condenado a 150 anos de cadeia, que começou a preparar o crime um mês antes. Teve a ajuda do cunhado e de mais dois seguranças, que executaram o massacre. O objectivo era roubar as vítimas, matá-las e enterrá-las sem deixar rasto. Por isso, cimentaram o buraco onde empilharam os corpos. Depois levantaram dinheiro na ordem dos trinta mil euros.

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