Em Barrancos, onde ontem terminaram as festas, a tradição é lei. E por isso, apesar de, este ano pela primeira vez desde 1928, os touros terem sido mortos de forma legal, os barranquenhos voltaram a contornar a lei para fazer cumprir, a rigor, a tradição.
Desta vez para comer a carne dos touros lidados. É que, apesar de legalizadas as touradas de morte, este ano surgiu o obstáculo da proibição da comercialização e consumo de carne de animais abatidos fora dos matadouros.
A situação parece ter sido, no entanto, contornada com uma simples “manobra”: o presidente da Câmara Municipal anunciou que os touros foram doados ao povo e resolveu distribui-los para consumo gratuitamente.
Para o autarca, Nelson Berjano,a festa tem de ser vista "como um todo, incluindo a lide e o consumo da carne dos animais”. Assim, sexta-feira à noite, assumindo a responsabilidade, o autarca disse que a distribuição gratuita da carne era a "única solução possível" para não infringir a lei, uma vez que não foi comercializada que é o que é proibido.
"Como presidente da Câmara assumo a responsabilidade, em conjunto com a autoridade (veterinário municipal) que atestou que a carne estava em condições para consumo", explicou.
Só depois desta decisão, os ânimos dos populares se acalmaram, após dias de "incertezas" sobre se a tradição se voltaria a cumprir no que respeita ao destino a dar aos touros - o prato. Em anos anteriores, a carne foi sempre comercializada por um dos talhos locais. E apesar do obstáculo deste ano, mais uma vez Barrancos fez cumprir a sua tradição.
A médica ‘oficial’ da festa
Dos touros só vê a carne, no prato, e garante que gosta. Ana Isabel Nascimento, médica de 47 anos, marca presença em todas as touradas de Barrancos, mas do lado de fora, pronta a apoiar os bombeiros locais em qualquer emergência.
Vista como uma espécie de "médica oficial da festa", Isabel não falha, desde 1996, a festa, tendo uma relação muito especial com a comunidade barranquenha.
"Sou compensada com carinho", diz, explicando as razões que a trazem de regresso, por quatro dias, à vila onde trabalhou como delegada de saúde pública entre 1996 e 2000. No curto período da visita que agora faz a Barrancos é solicitada, de dia e de noite, para acudir a maleitas.
A sua principal actividade voluntária é, contudo, o apoio aos bombeiros nos momentos mais críticos das festas - o "encerro" dos touros, pela manhã, e as corridas, ao fim da tarde.
"Este ano, até ao momento, não foi registado qualquer caso preocupante. O pior episódio foi com um toureiro espanhol, atingido pelo touro em 2001, que foi transferido para Sevilha, mas sem complicações graves.
Legislação e tradição
Ilegal durante 73 anos
A Lei em vigor (19/2002, de 31 de Julho) remete para a Inspecção-Geral das Actividades Culturais a concessão da autorização excepcional para matar os touros na arena, depois de consultada a Câmara Municipal do concelho da tourada. Barrancos esteve fora da Lei entre 1928 e 2001.
Três séculos de lides
Segundo os locais, o sangue na arena em Barrancos tem três séculos de história. Nos arquivos municipais, destruídos por duas vezes ao longo dos séculos, constam algumas referências às lides realizadas no século XIX.
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