"Eu estava a dormir com o meu filho e, de repente, vi o Paulo na minha casa a dizer que a polícia andava atrás dele. Ele só me dizia que tinha de se esconder ali e fechou-se com o cão dele, um pitbull”.
Cláudia Silva, de 17 anos, não queria acreditar que o amigo estava metido em sarilhos. Deu-lhe guarida. O filho de ano e meio estava assustado com o barulho. Cláudia apressou-se a vestir o roupão e foi para a rua com o bebé. “Deixei-o ficar lá em casa porque somos amigos. Mas depois fiquei com medo e fui-me embora. Quando saí de minha casa os polícias mostraram-me o mandado que tinham para levar o Paulo preso”, conta Cláudia ao CM.
Eram quase 11h00 de ontem, quando Paulo Carocho, de 22 anos, fugiu aos quatro agentes que faziam patrulha no Bairro da Horta Nova, em Carnide, e se barricou na casa de Cláudia, entrando pela janela das traseiras. Os agentes estavam a passar de carro à entrada do bairro quando localizaram Paulo, sob quem recaía um mandado de detenção efectiva que tinha sido emitido pelo tribunal.
Cinco horas depois de estar barricado num dos quartos da casa de Cláudia e de ter ido à janela ameaçar a polícia com um revólver calibre .32, Paulo acabou por ser detido por elementos do Grupo de Operações Especiais (GOE), cerca das 16h15. Não ofereceu resistência e já tinha deixado sair o pitbull com quem permaneceu barricado.
O CM apurou no local que aquando da detenção – feita após o cumprimento de uma busca domiciliária – foram encontradas 70 gramas de haxixe que pertencerão aos donos da casa.
No local – um bairro camarário onde vivem 2 mil pessoas – estiveram cerca de 50 elementos policiais de quatro unidades especiais: GOE, Brigada Cinotécnica, Corpo de Intervenção; e inactivação de explosivos. Para Paula Monteiro, porta-voz da PSP de Lisboa, esta foi mais um incidente táctico-policial que justificou todos os meios envolvidos. “ Não foram usados meios fora do comum, apenas os necessários para garantir a segurança do barricado e agentes”.
MÃE DE SUSPEITO DESMAIOU
Passavam poucos minutos das 16h00 quando Imaculada desmaiou à porta de casa, o prédio A16, depois de ver o filho ser levado pelo GOE. “Ela estava muito nervosa com o que se passou com o filho. Acabou por desmaiar de nervos e fraqueza”, conta ao Correio da Manhã um dos moradores do prédio que prefere manter-se no anonimato. José, o pai de Paulo, estava visivelmente abalado com o aparato policial montado à porta de sua casa para capturar o seu filho e recolheu-se no seu apartamento, no quarto andar, evitando assim o contacto com os jornalistas. Também o filho mais velho tinha sido detido horas antes (ver apoios). Os vizinhos estavam revoltados com o fecho da rua Vítor Santos. Alguns tinham chegado do supermercado com alimentos congelados e foram impedidos de ter acesso a casa, outros faltaram ao trabalho por não poderem sair e houve quem falhasse a administração de antibióticos.
ESPECIALISTA EM ROUBOS E VANDALISMO
Aos 22 anos Paulo Carocho conta já com um longo currículo criminal. Está separado da companheira e tem uma filha de dois anos. “Já estava referenciado pela PSP por ter cometido vários furtos, roubos e agressões a elementos policiais e a civis”, explicou a subcomissária Paula Monteiro. Conhecido no Bairro da Horta Nova como um “tipo complicado” e responsável por actos de vandalismo em carros e vários furtos, Paulo tem vários processos-crime pendentes na Justiça. Em 2005, Alfredo Figueiredo dos Santos, de 64 anos, foi vítima de roubo por esticão. “Eu vinha do trabalho de manhã e ele passou por mim e deu-me um esticão no pulso. Quando olhei já me tinha roubado duas pulseiras de ouro. Ele só tem feito asneira aqui no bairro”, conta ao Correio da Manhã.
AGENTES FERIDOS
Na primeira tentativa de detenção, dois agentes do Corpo de Intervenção ficaram feridos. Segundo a subcomissária Paula Monteiro, “um num dedo e outro com um rasgo no lábio”.
TRÊS DETIDOS
O irmão de Paulo, de 32 anos, uma vizinha de 26 e o pai desta, de 49 anos, foram detidos depois de agredirem dois agentes e tentarem impedir a detenção. Têm todos cadastro.
ALGEMADO NUMA MÃO
Paulo fugiu assim que percebeu que a polícia estava no seu encalço. Os quatro agentes ainda o imobilizaram, mas Paulo conseguiu fugir apenas com uma mão algemada.
POSTO DO INEM
O INEM esteve ontem a dar apoio à PSP. Montaram um posto médico na Rua Herculano Penafiel para dar assistência a civis e agentes. Apenas a mãe de Paulo e os dois agentes feridos foram assistidos.
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