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Correio da Manhã

Portugal
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Boleia para a morte

A empresa tinha-lhe emprestado uma carrinha nova, porque a caminho do trabalho dava boleia aos colegas. O ‘falatório’ que isso gerou levou-o ao desespero. Ontem, em Vale Estreito, Oleiros, o homem, de 48 anos, matou a tiro uma colega. Em seguida, tentou suicidar-se e está em estado grave.
3 de Maio de 2006 às 00:00
Joaquim Anjos Morgado, residente em Cardosa, saiu de casa para ir trabalhar numa serração, como fazia habitualmente. “Levou almoço e tudo”, conta uma vizinha do homicida. Pelo caminho, como usava uma carrinha da empresa, dava boleia a vários colegas. Pelas 07h35, quando parou em Vale Estreito, para recolher Carminda Ladeira, aconteceu a tragédia. Nesta altura, o agressor ainda seguia sozinho e matou-a à queima roupa.
Ao abrir a porta, a mulher foi surpreendida com três tiros. Um deles atingiu-a no peito. Joaquim Anjos Morgado empunhava uma caçadeira – que possuía apesar de não ser caçador – e não deu qualquer hipótese de reacção à vítima.
Na origem do crime – segundo vizinhos e familiares – estará o facto de alguns colegas de trabalho do agressor o censurarem por andar com uma carrinha nova da empresa. Estas críticas terão ofendido Joaquim Anjos Morgado de tal modo, que decidiu reagir da pior forma. A vítima seria uma das pessoas envolvidas no ‘falatório’.
Após ser atingida, Carminda Ladeira, casada, com dois filhos - um menor e outro maior de idade - caiu inanimada. Foi uma moradora da aldeia que a descobriu e chamou um dos seus filhos, que estava em casa, mas não deu pela tragédia. Ele, ao aperceber-se que a mãe tinha sido atingida a tiro, tentou reanimá-la, mas os seus esforços foram inglórios.
“Ele já a trazia fisgada”, disse Manuel Almeida, morador em Vale Estreito, que, como outros populares, já conheciam os conflitos existentes entre o atirador e os colegas de trabalho.
Joaquim Anjos Morgado dirigiu-se a uma fazenda que possui em Cardosa, com o propósito de se suicidar. Antes de disparar, telefonou aos dois filhos – maiores de idade – informando-os que se ia matar. Um deles tentou demovê-lo e foi à sua procura, mas quando chegou junto ao pai, já ele tinha desferido um tiro no queixo.
Com a ajuda de um vizinho, transportou o pai de carro até Azenha - a 8 quilómetros de distância - onde foi assistido por uma equipa do INEM e transportado para o Hospital de Castelo Branco. Mais tarde, devido à gravidade dos ferimentos, foi evacuado aos Hospitais da Universidade de Coimbra, onde está internado em estado considerado grave.
A GNR da Sertã tomou conta desta tragédia, cuja investigação transitou, entretanto, para a PJ de Coimbra.
'JOAQUIM ERA UMA PESSOA ESPECTACULAR'
“Há coisas que merecem um tiro. Mas, neste caso, pelo que dizem, foram coisas sem fundamento nenhum”, diz Carlos Agostinho, vizinho do homicida e que lhe prestou os primeiros socorros. “Ele era uma pessoa espectacular. Tinha a casa nova quase pronta e, por isso, não se entende como foi fazer uma coisa destas”, acrescentou. Joaquim Anjos Morgado, antes de tentar suicidar-se, telefonou a um dos filhos, disse-lhe que se ia matar e pediu-lhe que tratasse bem a mãe e a irmã. O filho, segundo Carlos Agostinho, ainda lhe pediu para pensar melhor, mas não conseguiu evitar a tentativa de suicídio. O homicida “era um homem de trabalho”, muito estimado na aldeia onde vivia. “Não fazia mal a ninguém”, contou Atilde Agostinho. Entretanto, circularam rumores de que o crime poderia ter na sua origem questões passionais, porque o agressor seria amante da vítima mortal. No entanto, as investigações policiais desenvolvidas até agora não parecem apontar nesse sentido, nem os vizinhos e amigos de ambos que falaram ao CM confirmaram estas suspeitas. As investigações agora a cargo da PJ vão, por certo, apurar as verdadeiras causas do crime.
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