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Correio da Manhã

Portugal
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Burla com formação

Várias dezenas de pessoas de localidades da Margem Sul, na maioria desempregados e estudantes, terão sido vítimas de uma elaborada burla de milhares de euros com cursos de formação profissional de Informática e Contabilidade.
31 de Maio de 2005 às 00:00
Promotor dos cursos foi detido pela GNR na Secundária do Pinhal Novo. Depois, nunca mais foi visto
Promotor dos cursos foi detido pela GNR na Secundária do Pinhal Novo. Depois, nunca mais foi visto FOTO: Sérgio Lemos
As aulas começaram em Abril mas, a meio deste mês, foram interrompidas quando o promotor dos cursos, um homem com cerca de 50 anos, foi detido pela GNR à porta da Escola Secundária do Pinhal Novo. Libertado no mesmo dia, nunca mais foi visto.
Entre as vítimas – além dos alunos inscritos em cursos no Pinhal Novo, Seixal, Montijo e Torre da Marinha – contam-se formadores e também diversas escolas do concelho, que celebraram acordos para disponibilizar salas para os cursos.
De resto, alunos e formadores contactados pelo CM explicaram que o facto de os cursos serem ministrados em escolas públicas funcionava como “garantia de qualidade” capaz de fazer esquecer pormenores mais “estranhos”.
“A primeira aula serviu apenas para pagarmos o curso e para nos ser mostrado um diploma da empresa, com certificação”, contou ao CM uma aluna do curso de Contabilidade e Gestão, no Pinhal Novo. A pronto pagamento, o curso de 110 horas custava 350 euros. Preço esse que subia para 400 euros se fosse pago com um cheque pré-datado e para 450 euros, se fossem dois os cheques. “A diferença era grande, mas não liguei muito”, lembra a mesma aluna, agora desempregada, sem curso e sem dinheiro.
À semelhança de muitos colegas, não só do Pinhal Novo mas de outras localidades, a aluna apresentou queixa na GNR, fornecendo cópias dos recibos que lhe foram entregues contra o pagamento. “O senhor assumiu publicamente que o curso era uma fraude e que não tinha meios para restituir o dinheiro”, acrescentou a lesada.
A ‘confissão’, perante alunos e professores, foi feita ao início da noite de 12 de Maio, quando o promotor dos cursos foi detido pela GNR à porta da Secundária do Pinhal Novo. “Nesse dia percebi que o problema não era apenas meu. Colegas que davam formação noutras escolas das redondezas também não tinham recebido”, contou uma formadora que, como os alunos pede para não ser identificada. Devem-lhe cerca de 400 euros.
Na escola do Pinhal Novo, que assinou um protocolo com o promotor dos cursos para a cedência de uma sala, o cheque de pagamento ainda não foi levantado. “Assinámos o acordo, as aulas decorreram normalmente até à detenção, mas o cheque ainda não foi descontado”, confirmou ao CM fonte da comissão executiva da escola.
Noutros estabelecimentos de ensino da Margem Sul, onde era suposto funcionarem cursos, os alunos foram “colocados na rua” em dia de aulas por não existir qualquer protocolo assinado.
DETALHES
SUSPEITAS
Aulas interrompidas a meio para receber cheques, turmas com alunos a mais e um telemóvel sempre desligado foram levantando várias suspeitas entre alunos e formadores. Além disso, a empresa promotora dos cursos, a que estaria ligado o homem, surge com nomes diferentes nos anúncios e nos recibos passados ao alunos.
MATERIAL
Nos anúncios era referido que todo o material do curso era gratuito. No caso da formação em Contabilidade e Gestão, no Pinhal Novo, os formandos receberam um manual, com várias incorrecções, e um CD que, alegadamente, conteria um programa de contabilidade. No entanto, o conteúdo do disco era apenas uma cópia de uma demonstração do programa de informática. Logo, inútil para os formandos.
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