A esmagadora maioria da população portuguesa considera que a Igreja Católica devia permitir o casamento dos padres. Uma sondagem realizada pela Aximage para o Correio da Manhã mostra que 80,3 por cento dos portugueses é a favor do fim do celibato obrigatório, enquanto apenas 15 por cento defende a actual situação.
Para o sociólogo Jorge Sá, o resultado desta sondagem revela que “não existe grande sintonia entre a prática da Igreja Católica e o que pensa a população”. No entanto, Jorge Sá diz que “há muita gente na Igreja que, tal como D. Frei Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga no século XVI, defende o fim do celibato obrigatório”.
Um dado curioso desta sondagem é que 74,6 por cento dos inquiridos que se disseram católicos praticantes mostrou-se favorável à existência de padres casados, o que aparenta um claro divórcio entre a estrutura da Igreja e os seus próprios fiéis.
“Não sei se pode falar-se de divórcio, mas a verdade é que o ponto de vista oficial da Igreja, nesta matéria, não coincide com o que pensa a esmagadora maioria da população, incluindo os católicos praticantes”, acrescentou Jorge Sá.
D. Januário Torgal Ferreira, bispo das Forças Armadas, diz que “é normal que as pessoas tenham dificuldade em entender o celibato, o voto de pobreza e de partilha ou outras regras da disciplina sacerdotal”. No entanto, o bispo castrense alerta para a necessidade de a Igreja dar atenção a estes sinais.
“A Igreja não pode passar ao lado do que pensa o povo e deve ter em linha de conta os sinais do Mundo”, afirma D. Januário, ao mesmo tempo que lembra que “o padre é um voluntário e não é forçado a nada”.
Mas o bispo das Forças Armadas não deixa de afirmar que “é muito provável que haja mudanças a esse nível, talvez mais cedo do que o que se pensa”. Referindo que o casamento dos padres ainda vai tardar, D. Januário admite que “a Igreja não vai demorar a aceitar a ordenação de homens casados”.
“Esse será, estou certo, o primeiro passo. Escolhendo pessoas íntegras, com vida familiar reconhecidamente estável e ministrando formação adequada. É, em meu entender, a melhor forma que a Igreja tem de aquilatar o funcionamento em uníssono dos sacramentos da Ordem e do Matrimónio”, acrescentou o prelado.
Posição mais comedida é a que tem D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.
Considerando “positivo” o facto de o Papa ter debatido a questão, numa reunião com os cardeais da Cúria, no dia 16 do mês passado, D. Jorge diz que “o entendimento geral de padres e bispos é, a exemplo do que o Santo Padre afirmou após a cimeira, de que o celibato é vantajoso, já que permite maior disponibilidade para a pastoral”.
“Trata-se de uma questão de disciplina, que vigora na Igreja desde a Idade Média e que a qualquer momento pode mudar. No entanto, penso que ainda estamos longe do momento oportuno para operar essa mudança”, afirmou o arcebispo.
Aliás, das duas vezes que falou sobre o assunto, Bento XVI fez sempre questão de realçar “o valor da escolha do celibato sacerdotal”.
Universo - Indivíduos inscritos nos cadernos eleitorais em Portugal em lares com telefone fixo.
Amostra - Aleatória e estratificada (região, habitat, sexo, idade, instrução e voto legislativo), polietápica e representativa do universo, com 550 entrevistas efectivas (293 a mulheres).
Proporcionalidade - Variáveis de estratificação, com reequilibragem amostral.
Técnica - Entrevista telefónica. Taxa: 78,7%. Desvio padrão máximo de 0,021.
Trabalho de Campo - 15 a 17 de Novembro de 2006. Responsabilidade do estudo Aximage, para Correio da Manhã, com a direcção técnica de Jorge Sá e João Queiroz.
150 MIL CASADOS
Apesar de não existir um registo efectivo de quantos padres optaram por casar, estima-se que em todo Mundo sejam mais de 150 mil. Só nos Estados Unidos são 25 mil, em Itália dez mil e em Espanha seis mil. Portugal, segundo a Fraternitas, deve ter cerca de 800 padres casados.
O EXEMPLO DE MILINGO
Emanuel Milingo fora arcebispo de Lusaca, na Zâmbia. Em 26 de Setembro foi excomungado pelo Vaticano. Criou uma associação de padres casados e ordenava bispos sem a autorização do Papa. Após a excomunhão, aos 76 anos, Milingo exigiu ao Papa uma “mudança urgente à Igreja Católica”.
CONSTRANGIMENTO
A maioria dos padres que optam por contrair matrimónio tem enormes dificuldades em manter-se nas localidades de origem. Sentem-se constrangidos e decidem mudar de zona de residência.
PAPA PELO CELIBATO
Ainda recentemente, o Papa Bento XVI reuniu os cardeais da Cúria para discutir o tema. Apesar de ser um sinal claro de abertura à questão, o Pontífice ainda não determinou o fim da obrigatoriedade do celibato.
DISCIPLINA CATÓLICA
Ao contrário da ordenação de mulheres, a questão do celibato dos padres não obriga à realização de um concílio, podendo ser abolida a qualquer momento por decisão do Papa.
TRADIÇÃO 'RECENTE'
Em dois mil anos de história da Igreja, a obrigatoriedade do celibato só foi determinada no século XVI, no Concílio de Trento. Existem historiadores a defender que a prática do celibato foi decidida por forma a evitar que a Igreja Católica pudesse perder posses em eventuais disputas de heranças.
"PARA SE SER SANTO NÃO É PRECISO SER CELIBATÁRIO
Vasco Fernandes é presidente da Associação Fraternitas Movimento, que congrega padres casados ou não dispensados do exercício do ministério.
Correio da Manhã – Como encara o resultado da sondagem, na qual 80 por cento dos inquiridos concorda com o fim do celibato?
Vasco Fernandes – Não me surpreende e penso que não surpreende nenhum dos membros da nossa associação. Acredito tratar-se de uma percentagem lógica e reflecte bem o que nós encontramos no contacto diário com as pessoas. As pessoas encaram com a maior naturalidade que pudessemos exercer, mesmo sendo casados.
– O futuro deixa antecipar uma maior abertura da Igreja Católica a esta questão?
– A serem levantados problemas não será por parte do povo que eles surgirão. Isso seria uma surpresa, até porque nos dizem, muitas vezes, que o desejam.
– Alguma razão em especial?
– Como é sabido, existe uma falta de sacerdotes muito grande. Em muitas zonas do País, não é possível realizar a Santa Eucaristia porque muitas comunidades estão sem padres e as pessoas sentem essa falta.
– Estão contra o celibato?
– Não, não temos nada contra o celibato. O celibato é uma opção magnífica de entrega e de generosidade total. Nós só não concordamos com a sua obrigatoriedade. É um valor, mas não é único. Para se ser santo, não é preciso ser celibatário.
– Por que é obrigatório ser celibatário para se ser padre?
– Não é fácil responder a essa questão. É uma decisão disciplinar que não tem qualquer fundamento teológico nem bíblico para existir. São Pedro, o principal dos apóstolos, era um homem casado. Foi uma questão disciplinar que, a determinado momento, optou por essa obrigatoriedade. Até ao final do século XII não era obrigatório. Não se pode falar em tradição, mas, como todas as tradições, pode ser modificada.
– Este fundamentalismo pode afastar as pessoas da Igreja?
– Não acredito, porque a Igreja é muito mais profunda do que as questões disciplinares. As pessoas têm de compreender que, nas questões disciplinares, a Igreja é humana e, como tal, pode cometer infidelidades ao Espírito. Não estar tão atenta à voz do Espírito em cada momento da história.
– Mas é um fundamentalismo da Igreja...
– De certa forma é, e tudo o que é fundamentalismo é errado. A Igreja tem de estar atenta ao Espírito Santo para deixar de o ser. O povo de Deus é sensato e não será por esta razão que se afasta da Igreja Católica.
PERFIL
Vasco Fernandes, de 71 anos, é casado há 30 e, para isso, pediu dispensa de cumprir o celibato, ficando com a sua actividade suspensa. Apesar de não poder exercer as funções de sacerdote, Vasco Fernandes não se afastou da vida católica, mantendo ainda hoje uma colaboração muito próxima com a Igreja. Entre as inúmeras actividades que mantém, destaca-se a presidência da Associação Fraternitas Movimento, além de cantar ópera e ser voluntário em várias instituições.
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