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Correio da Manhã

Portugal
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Corrupção trama 89 militares

Fraude em messes da Força Aérea. Tenente-general é um dos presos.
Sérgio A. Vitorino 5 de Novembro de 2017 às 09:36
Tenente-general Milhais Carvalho
Estado-Maior foi alvo de buscas
Tenente-general Milhais Carvalho
Estado-Maior foi alvo de buscas
Tenente-general Milhais Carvalho
Estado-Maior foi alvo de buscas
O esquema prolongou-se décadas nas messes da Força Aérea por todo o País, lesando o Estado em mais de 10 milhões de euros. Empresários da área da alimentação passavam faturas de valores mais elevados do que os bens que realmente entregavam.

O dinheiro a mais era distribuído por todos, civis e militares. No topo estava o major-general Raul Milhais de Carvalho, que comandava até há um ano a Direção de Abastecimento e Transportes da Força Aérea.

O general é um dos 13 militares em prisão preventiva - outros cinco estão em domiciliária. Estão todos entre os 86 - militares, empresários e empresas - agora acusados pelo Ministério Público.

Tal como o CM então noticiou, o esquema foi desbaratado em duas ações da Unidade Nacional de Combate à Corrupção da PJ, em articulação com a 9ª secção do DIAP de Lisboa. Em novembro de 2016 foram detidos seis homens por corrupção ativa e passiva e falsificação de documentos. Em julho deste ano foram apanhados mais 16, entre eles o tenente-general, um coronel, um tenente-coronel, um major, três capitães e cinco sargentos, além de quatro empresários do ramo alimentar.

Na altura foi explicado que o esquema passava por "messes da Força Aérea serem abastecidas com géneros alimentícios, cujo valor a pagar, posteriormente, pelo Estado-Maior da Força Aérea, seria objeto de sobrefaturação". A corrupção entre os responsáveis pelas messes e os empresários foi alvo de uma denúncia anónima às autoridades, em 2014, supostamente realizada por um fornecedor descontente.

A investigação contou com o depoimento de vários arrependidos, militares que relataram como o esquema durava há mais de 20 anos. Estes foram saindo para casa com pulseira eletrónica e foram fundamentais para as detenções na segunda fase da operação.

Buscas apanharam 500 mil € em notas
A PJ apreendeu nas buscas, em casa dos militares, mais de meio milhão de euros em dinheiro vivo - 200 mil dos quais apenas numa habitação. Isto porque a distribuição de luvas era feita em notas para não deixar rasto de cheques ou transferências bancárias. Os militares em prisão preventiva encontram-se no Presídio Militar de Tomar, gerido pelo Exército.

Candidatos preteridos travam curso em tribunal
Militares que ficaram sem vaga no estágio Técnico-Militar da Força Aérea, para acesso ao quadro permanente, conseguiram que um juiz travasse o curso. Segundo fonte oficial da Força Aérea, "no anúncio havia 30 vagas, mas sempre dissemos que estavam condicionadas a despacho das Finanças e Defesa. Quando este saiu, aprovou um número menor. O recurso é de alguns dos excluídos", explicou.

PORMENORES
Duas operações
Em julho, a operação envolveu 130 elementos da PJ e dez procuradores do Ministério Público. Foram realizadas 36 buscas em Lisboa, Porto, Santarém, Setúbal, Évora e Faro. Na primeira fase, o ano passado, tinham sido feitas 180 buscas com 400 homens no terreno, em 12 bases militares, nas sedes de 15 empresas e em mais de uma centena de domicílios.

Nome de código Zeus
O chefe do Estado-Maior da Força Aérea, general Manuel Teixeira Rolo, esteve sempre ao corrente das suspeitas, assim como o seu antecessor, general José Pinheiro. Às operações foi dado o nome de código Zeus, da mitologia grega, pai de todos os deuses e deus dos céus.

Cobravam o triplo
A diferença entre o valor entregue e o faturado atingia por vezes o triplo. Ou seja, poderiam cobrar três mil euros em bacalhau e entregarem apenas mil. Os outros dois mil euros eram divididos por todos.
corrupção militares Força Aérea
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