Novos pobres são jovens sem vícios e sem problemas mentais. São centenas os que dormem na estação do Oriente, em Lisboa, e recebem uma refeição.
O crescimento do desemprego mergulhou na miséria centenas de jovens. As associações que oferecem refeições aos mendigos em Lisboa classificam-nos como os novos pobres, por a fome e a falta de um tecto não estarem associadas a problemas mentais ou à dependência de drogas ou do vinho.
Estação do Oriente, 22h30 do último domingo. Cerca de 200 pessoas instalam-se nos bancos de cimento para passar mais uma noite abrigadas do frio e da chuva. Com a chegada de voluntários do Centro de Apoio ao Sem-Abrigo (CASA), colocam-se em fila para receber uma refeição quente. As filas para um jantar grátis repetem-se em diferentes pontos da capital: Anjos, Arroios, Santa Apolónia, Campo das Cebolas ou Algés. Em todas elas surgem rostos de jovens que confessam ter caído na rua depois de vários anos a trabalhar.
Fernando Moreira, 39 anos, natural do Porto, está desempregado ao fim de 19 anos a trabalhar numa fábrica de meias que foi à falência. Veio procurar trabalho em Lisboa dada a ausência de oportunidades a Norte. Com um subsídio de desemprego de 353 euros, dorme num quarto na Almirante Reis e está a tirar um curso de pasteleiro em Alverca (Vila Franca de Xira), onde recebe mais 90 euros por mês e o passe para os transportes. Decidiu poupar nas refeições, graças à caridade de diferentes instituições, para conseguir pagar a carta de condução.
"Nunca estive numa situação tão complicada." É desta forma que João Matos, residente nos Olivais, em Lisboa, classifica a sua vida. Desempregado há três anos após ter trabalhado na construção em Espanha, vive numa habitação social que pertenceu aos pais, com as rendas em atraso. "A água e a luz paga a minha irmã e para comer venho pedir para a estação do Oriente", disse ao Correio da Manhã.
A exemplo destes dois jovens, quatro em cada seis desempregados possuem até ao 9º ano de ensino e têm menos de 45 anos. Pela primeira vez, registe-se, existem em Portugal 600 mil sem trabalho.
CARIDADE CRESCE EM ANO DE CRISE
Uma avaliação realizada pela Câmara de Lisboa no ano passado detectou 1187 sem-abrigo na capital. No País, são cerca de três mil. Contudo, num ano de crise e de forte crescimento do desemprego, o número de carenciados pode estar a aumentar. Jorge Correia, da CASA, referiu que em São Jorge de Arroios subiu de 20 para 80 o número de refeições entregues. No total da cidade, subiu de 200 para 350.
DISCURSO DIRECTO
"BENS SALVOS DO LIXO", Isabel Jonet, Presidente do Banco Bens Doados
Correio da Manhã – De que forma o Banco de Bens Doados contribui para reduzir a pobreza?
Isabel Jonet – Entregamos detergentes, mobílias, electrodomésticos e roupa a instituições que apoiam 280 mil carenciados.
– Como podem os particulares contribuir?
– Só aceitamos mobílias, electrodomésticos e artigos de bebé que sejam em segunda-mão.
– Os bens dados pelas empresas são então novos?
– Sim. São artigos em fim de linha. Referentes a promoções ou restos de colecção. São bens que desta forma são salvos do lixo.
– Quais os bens que fazem sempre falta?
– Apesar de entregarmos mais de um milhão de artigos por ano, por intermédio de 1800 instituições, os detergentes fazem sempre falta.
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