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Do Porsche aos 16 anos à fama de "pé pesado" numa vida atribulada. Conheça Miguel de Sousa Cintra

Filho de José de Sousa Cintra chegou a estar entre a vida e a morte.
Correio da Manhã 15 de Setembro de 2020 às 18:56
Miguel de Sousa Cintra com o pai, José de Sousa Cintra
Miguel de Sousa Cintra
Miguel de Sousa Cintra com o pai, José de Sousa Cintra
Miguel de Sousa Cintra
Miguel de Sousa Cintra com o pai, José de Sousa Cintra
Miguel de Sousa Cintra
Miguel de Sousa Cintra, que esta terça-feira foi apanhado a disparar vários tiros contra viaturas e também para o areal da praia da ingrina, em Vila do Bispo, teve uma vida atribulada.

Logo ao nascer, a 7 de Agosto de 1969, o único filho do ex-presidente do Sporting José de Sousa Cintra, esteve entre a vida e a morte. O cordão umbilical enredou-se à volta do pescoço e, como no Algarve os hospitais não possuíam condições, o parto teve de ser transferido para Lisboa. "Logo aí tive pontaria. A minha família é lá de baixo e devido a essas dificuldades creio que sou o único elemento com registo ‘alfacinha’. Mas considero-me algarvio", disse Miguel em declarações à revista Domingo, suplemento semanal do Correio da Manhã, corria o ano de 2004.

Muito novo assistiu à perturbante separação dos pais. Em compensação contou com o apoio de primos da Cova da Piedade, que o educaram até aos 12 anos e lhe deram uma vida de classe média, tendo estudado em escolas oficiais.

O trajecto estava porém destinado a ser feito aos tropeções. O segundo casamento do patriarca da família Cintra aconteceu por essa altura e Miguel voltou para Lisboa, para viver com o pai. Parecia tudo correcto, não fosse o José Sousa Cintra colocá-lo no Colégio Manuel Bernardes.

Habituado a viver sem restrições, sentiu-se enclausurado numa instituição que prima pelo rigor e disciplina, onde era posta à prova a sua fama de miúdo "irreverente, sonhador e rabino", como lembra Abílio Fernandes, ex-vice presidente do Sporting. "Não me consegui adaptar àquela escola de padres", lembrou Miguel. "Vinha da Margem Sul, onde brincara com todo o tipo de crianças, ricas ou pobres, e senti-me fechado".

Já então ele percebera que o dinheiro pode não dar felicidade, mas ajuda muito. Aos nove anos, enquanto a maior parte das crianças ansiava por uma bola de futebol ou uma bicicleta, ele pedia ao pai uma mota, um sonho de infância que viria a tornar-se realidade quase imediata, quando lhe ofereceram uma pequena Casal Boss.

Num dos muitos armazéns da empresa de águas que o pai detinha na altura, da qual mais tarde viria a ser gestor, Miguel chegou a ter uma pequena colecção de motas, entre os quais se destacava uma Harley Davidson. "O Miguel chegou a mostrar-me alguns exemplares, escondidos a um canto por causa do pai, que dava-lhe tudo mas não gostava daquela mania", revelou Abílio Fernandes, ex-vice-presidente do clube de Alvalade e amigo da família.

No Porsche com carta de bicicleta A propensão para acelerar no asfalto é uma das características de Miguel, tendo-lhe valido fama de ‘pé pesado’. Aos 16 anos, o pai ofereceu-lhe um Porsche, que o filho testou até aos limites. "Foi comprado porque eu chegava constantemente atrasado às aulas e estava prestes a chumbar por faltas", diz o empresário.

Durante dois anos andou de carro "com a carta verde inglesa, que não teria qualquer irregularidade não fosse o facto de não servir para automóveis, mas para bicicletas". A polícia mandou-o parar diversas vezes, mas nunca descobriu a artimanha, digna da personagem principal do filme ‘Apanha-me Se Puderes’, de Steven Spielberg.

A vida dele alterou-se radicalmente a partir de uma viagem aos Estados Unidos, onde fez alguns cursos de Gestão, de grau médio. "Nunca dei grande importância aos ‘canudos’. Ainda não me informei sobre isso e, tal como o meu pai, acredito que a maior escola é a da vida".

No regresso a Portugal, movido pela intenção de provar não ser apenas mais um ‘yuppie’ com vontade de gastar a fortuna paterna, arregaçou as mangas e começou a trabalhar. "Tinha 19 anos e fiz de tudo um pouco na Vidago até chegar à administração. Comecei nos armazéns, depois passei para inspector de rua e só mais tarde veio a oportunidade de fazer formação. Não sou ‘filhinho do papá’, nunca tive nada de mão beijada", esclarece.

Menos sportinguista do que o pai, relação entre Miguel Sousa Cintra e o Sporting divide opiniões. "O Miguel preferia ver o estádio de Alvalade como um local de concertos, em vez de olhar para ele como um recinto de futebol", recorda José Manuel Roseiro.

O ex-vice-presidente dos ‘leões’ para a área financeira lembra que, apesar de considerá-lo "formidável, amigo e bem-educado e com bom coração", não esquece os pequenos caprichos que a dada altura ele decidiu pôr prática. Como arranjar 500 bilhetes para um espectáculo musical e distribui pelos amigos e clientes. "Era capaz de mostrar o seu lado de mãos largas, mas apesar da veia sportinguista vivia com pouca intensidade o fenómeno desportivo".

José de Sousa Cintra, pelo contrário, sempre foi o mais ‘ferrenho’ dos Cintra. E embora achasse graça ver o filho sentar-se numa cadeira que já ocupou, jamais influenciaria o seu filho nesse capítulo: "É algo de tão íntimo que nunca lhe daria qualquer conselho nesse campo. A decisão, a ser tomada, só poderia ser assumida por ele".

Num futuro próximo, não se prevê que Miguel venha a candidatar-se ao cargo. Prefere antes concentrar-se nos negócios, em especial os do imobiliário.

"Passei um ano tão mau que só quero ouvir falar em resultados positivos. Primeiro foi a acusação de crime de abuso de informação, sentença da qual já recorri e que só deve ter a ver com o facto do meu apelido ser Sousa Cintra. Depois aquela história dos jipes contrabandeados, que envolvia os Bombeiros Voluntários de Sacavém. Se isto continuar assim vou deixar de doar coisas às pessoas. Este foi, creio, o ano mais horrível de toda a minha vida. Espero não ter outro igual."
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