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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

“Estava nervoso e explodi”

A premeditação do crime é dos poucos aspectos da acusação que o assassino contesta. "Só queria assustá-la com a marreta, mas na altura estava muito nervoso e explodi para cima dela", explicou ontem no Tribunal de Viseu David Saldanha, 23 anos, que está a ser julgado pela morte da namorada à marretada, em Novembro de 2009.

03 de setembro de 2010 às 00:30

"Foram duas pancadas [com a marreta]. Foi um impulso que tive porque queria que acabasse com a discussão", garante o jovem, que não soube explicar se algum dos golpes foi dado quando a vítima já estava no chão. "Fiquei em estado de choque e depois, para não lhe ver a cara, pus-lhe um saco plástico", explicou o homicida, que durante a descrição do crime chorou e pediu à juíza para não lhe perguntar sobre o estado em que ficou a namorada, Joana Fulgêncio, 20 anos.

David Saldanha contou ao pormenor os momentos seguintes ao homicídio, a 17 de Novembro de 2009. "Arrastei-a para dentro do carro, dei várias voltas e depois fui para a barragem de Fagilde, que a Joana me tinha dito ser uma zona bonita". Ali, "pensei em meter-me no carro para também morrer, mas não consegui", disse ao colectivo de juízes.

Depois, o homicida, estudante, foi pedir socorro a um café da zona, dizendo que fora roubado e que os ladrões haviam raptado a namorada. Perante as provas apresentadas pela Polícia Judiciária, acabou por assumir o crime.

Quando confrontado com perguntas que visavam apurar a premeditação do crime, alegou ter comprado a marreta "para se defender" porque dias antes tinha tido "uma briga com rapazes amigos da Joana" e temia pela sua "segurança".

Para justificar o falso roubo e sequestro da namorada, David Saldanha disse que na altura ficou "transtornado" e não acreditava "naquilo que estava a acontecer. Fiquei sem saber o que fazer". Ontem foram ouvidas 13 testemunhas de acusação. O julgamento continua segunda-feira, com a audição de 17 testemunhas de defesa.

POLÍCIA E POPULARES CERCAM TRIBUNAL

Por considerar um julgamento de risco, o Tribunal de Viseu pediu à PSP o reforço do dispositivo de segurança. Duas dezenas de agentes fizeram vigilância no tribunal e, na sala de julgamento, o arguido esteve sempre escoltado por quatro policias, além dos guardas-prisionais. Cem pessoas estiveram à porta do tribunal, onde empunharam cartazes e vestiram t-shirt pedindo "pena máxima". "Exigimos justiça para quem se acha dono de uma vida inocente", lia-se numa.

"PENA MÁXIMA PARA O ASSASSINO DA MINHA FILHA"

A mãe da vítima, que ontem depôs em tribunal envergando uma t-shirt onde pedia "pena máxima para o assassino" da filha, disse que o casal "tinha um namoro normal" e que "jamais" suspeitou de "que ele fizesse uma coisa destas". Paula reconheceu não gostar "da sua forma de ser: Aceitei-o porque a Joana gostava dele. Mas já estava farta". No final, tentou agredir o arguido com o tripé do microfone. Valeu a intervenção de um PSP.

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