"Nunca tinha havido uma discussão como houve naquela reunião", sublinhou enquanto testemunha.
Uma ex-administradora do BES testemunhou, esta quinta-feira, que, antes da resolução do banco, foi questionada no Conselho de Administração a obrigatoriedade de a instituição reservar dois mil milhões de euros para cobrir perdas de vendas nos balcões de obrigações.
"Nunca tinha havido uma discussão como houve naquela reunião", sublinhou enquanto testemunha, no julgamento principal da falência do Banco Espírito Santo (BES), Rita Amaral Cabral.
Em causa está a reunião do Conselho de Administração do BES realizada em 30 de julho de 2014, dias antes da resolução do banco e numa altura em que o Banco de Portugal afastara já Ricardo Salgado da presidência daquele órgão e obrigara a instituição financeira a provisionar pelo menos dois mil milhões de euros para cobrir eventuais perdas das obrigações, expostas à crise no Grupo Espírito Santo (GES).
Na mesma altura, lembrou a administradora não executiva, existiam já clientes do BES que "apareciam aos balcões" para que o banco recomprasse, perdendo dinheiro, os instrumentos financeiros que vendera, com os pedidos a serem aceites para "não gerar pânico" entre os investidores.
Rita Amaral Cabral precisou que os representantes dos franceses do Crédit Agricóle foram os que mais se opuseram à medida, defendida pela representante da consultora KPMG.
Esta última acreditaria que o receio do pânico justificava a constituição da reserva de dois mil milhões de euros, enquanto o banco francês sustentaria que não se sabia se os pedidos para recompra de obrigações seriam generalizados.
Com a constituição da provisão, o BES deixaria de cumprir os mínimos exigidos de capital.
Embora tenham sido vendidos aos balcões do BES, os instrumentos financeiros estavam relacionados com entidades do GES, cujo colapso era então iminente.
De acordo com Rita Amaral Cabral, meses antes Ricardo Salgado lamentara-se que, desde que tinham sido tornado públicos os problemas no BES e no GES, todos lhe diziam "as coisas" que podia fazer ou não na gestão do banco.
O antigo presidente do BES, de 81 anos e doente de Alzheimer, é um dos 18 arguidos no processo, no qual responde por cerca de 50 crimes, incluindo um de associação criminosa e vários de corrupção ativa no setor privado e burla qualificada.
O Ministério Público estima que os atos alegadamente praticados entre 2009 e 2014 pelos arguidos - ex-quadros do BES e de outras entidades do GES - tenham causado prejuízos de 11,8 mil milhões de euros ao banco e ao grupo.
O julgamento decorre desde 15 de outubro de 2024 e prossegue a 30 de junho, no Tribunal Central Criminal de Lisboa, com o restante depoimento de Rita Amaral Cabral.
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