Debruçado sobre o caixão do filho, Eurico Gonçalves era ontem à tarde um pai inconsolável, completamente destroçado. Em lágrimas, beijou a urna que transportava o pequeno Martim, de 12 anos, e gritou desesperado pelo nome do menino no momento em que o corpo desceu à terra no cemitério de Vinhais, distrito de Bragança. A criança, que sofria de autismo, morreu no sábado depois de ter sido atirada do quarto andar de um hotel pela mãe, que se suicidou logo de seguida.
O corpo de Manuela Paçó, professora de 47 anos, foi também ontem enterrado junto ao do filho. Deprimida, terá cometido o ato de desespero com medo de que o menino ficasse sozinho no futuro. "Não vás embora, meu amor, meu filho fica comigo por favor", dizia em lágrimas Eurico Gonçalves – presidente da Assembleia Municipal de Vinhais e subdiretor do Agrupamento de Escolas da vila – apoiado pela família e amigos.
A cerimónia, que começou às 16h30, contou com centenas de pessoas que fizeram questão de dizer o último adeus a Manuela e ao filho, cujos corpos chegaram minutos antes do início do funeral. Todos se questionavam sobre as razões que terão levado a mulher – que deixou uma carta a pedir desculpa ao marido – a cometer tamanha loucura. E todos lamentavam não ter podido fazer nada e salvar mãe e filho da morte.
"Nesta altura parece estranho falar de esperança. A verdade é que todos nós lutamos para manter a nossa alegria de viver. Mas somos homens e mulheres e, infelizmente, muitas vezes acontecem tragédias", disse o pároco. No final da curta missa, a família pediu às centenas de pessoas presentes que saíssem da igreja. Fecharam as portas e no interior despediram-se pela última vez de Martim e Manuela.
Do exterior da capela ouviam-se gritos de desespero lá dentro. "Adeus, meu menino. Olha pela tua família", dizia um familiar da criança.
Minutos depois, Eurico e a família saíram da igreja, lavados em lágrimas, e dirigiram-se para o cemitério onde, pelas 17h30, o corpo de mãe e filho desceram à terra.
FLORES BRANCAS E BALÕES NO ÚLTIMO ADEUS A MARTIM
As centenas de pessoas que estiveram ontem no funeral fizeram questão de levar flores brancas e vários balões para dizer o último adeus ao pequeno Martim. Alguns membros da Associação Leque, que se destina a crianças com necessidades especiais e onde Manuela fazia parte da direção, estiveram também presentes no funeral. No final, a família evitou receber as condolências, explicando aos presentes que a dor era demasiado forte.
Após o final da cerimónia, Eurico Gonçalves regressou a casa de familiares, onde tem permanecido a receber apoio desde o dia da tragédia. Não mais voltou à moradia onde vivia com a mulher e com o filho de 12 anos. Não consegue encontrar uma explicação para a tragédia.
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