Nelson de Brito, ginecologista, é assistente hospitalar no Hospital de St.º António do Porto. Já atendeu dezenas de mulheres na sequência de abortos mal realizados. São relatos surpreendentes de quem já viu de tudo um pouco.
Correio da Manhã – Já atendeu muitas mulheres na sequência de abortos mal realizados?
Nelson Rodrigues de Brito – No Serviço de Urgência do Hospital de St.º António do Porto aparecem quatro, cinco casos por semana. Já atendi dezenas de raparigas nessas circunstâncias.
– A média de idades anda à volta dos 19, 20 anos. Algumas nem têm noção de que são novas demais e desconhecem o perigo que correm. Já atendi uma miúda de 14 anos que vinha num estado tão lastimável que tive de ser eu a acabar o trabalho. Essa miúda ficou, aliás, bastante traumatizada.
– Qual foi o caso mais dramático que atendeu?
– Uma vez assisti uma rapariga que vinha com 20 centímetros do intestino de fora. Foi a uma abortadeira que tentou dilatar-lhe o colo do útero com uma agulha de croché. Só que a agulha furou-lhe o útero e pegou o intestino. A abortadeira pensou que era o cordão umbilical e começou a puxar, o que levou a que o intestino lhe saísse pela vulva.
– Clinicamente quais são as complicações mais frequentes?
– Têm a ver com infecções, com doenças pelvico-inflamatórias e alterações de coagulação.
– Estes casos de aborto mal feito deixam mazelas para a vida?
– A partir do momento em que estas mulheres têm alta do hospital nós perdêmo-las, mas temos a noção de que há muitas mulheres que ficam com problemas para a vida. A grande questão é que deveriam ser acompanhadas por psicólogos, até porque estou convencido que de uma situação de aborto resultam sempre mais mazelas psicológicas do que físicas.
– No seu consultório particular também já atendeu alguns casos?
– Sim e há casos curiosos. Há para aí um medicamento para problemas gástricos que como efeito colateral pode dar grandes contracções e provocar o aborto. De maneira que já tenho atendido algumas mulheres nas quais o medicamento não resultou e que chegam aqui com o embrião ainda vivo.
– Costuma haver casos reincidentes?
– Mais do que se possa imaginar. Mulheres brasileiras, então, é muito frequente.
"SOU MÉDICO, NÃO POLÍCIA"
CM - Um médico é obrigado a denunciar as mulheres que recorrem aos hospitais na sequência de abortos clandestinos?
N.B. - Não. Do ponto de vista ético e até jurídico não é obrigado a fazê-lo. Não é ao médico de serviço que compete determinar se houve crime. Não sou polícia, sou médico. Mas mesmo que fosse policia precisava de ter ali ao lado a medicina legal para provar que a mulher realizou manobras abortivas. O que acontece é que quando há um aborto e o bebé pesa mais de 500 gramas isso já é considerado infanticídio. O bebé tem de ser enviado para a medicina legal e é a eles que compete determinar se houve crime.
- É a favor do aborto?
- A minha opinião é um bocado ambivalente. Se por um lado hoje em dia só engravida quem quer – e por isso quem engravida tem de assumir as responsabilidades –, por outro mais vale abortar do que dar à luz um filho indesejado. E sabemos que estes casos acabam muitas vezes em abandono ou morte da criança. Nunca podemos esquecer as condições sócio-económicas da mulher.
Nelson Rodrigues de Brito, 55 anos, é assistente hospitalar do serviço de ginecologia e obstetrícia do Hospital de Stº. António, do Porto, onde trabalha há já 20 anos. É médico do SAMS e dá consultas num consultório particular na cidade Invicta. Está ligado à reprodução medicamente assistida e é membro da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e da Sociedade Europeia de Ginecologia.
Sobre o aborto defende a sua legalização com algumas restrições e lembra que este é um problema que não tem só a ver com classes desfavorecidas. “Já atendi uma advogada que fez um aborto em que a coisa correu tão mal que veio ter comigo em estado de choque-séptico. Tinha 26 anos e ficou sem o útero. O irónico é que ela quis processar quem lhe fez o aborto, esquecendo-se que para isso tinha também que se processar a ela própria.”
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