Mário Vaz Maia deu vários pontapés na cabeça de um suspeito detido. No hospital, vítima ouviu: "sabemos onde moras" e "mesmo fora de serviço apanhas".
A 27 de agosto de 2024, com o relógio a marcar as 00h50, quatro agentes da PSP estavam na esquadra do Rato, em Lisboa, onde exerciam funções, e receberam uma chamada de uma ocorrência de violência doméstica na Rua de Santa Marta. Mário Vaz Maia, irmão do cantor Nininho Vaz Maia, estava no grupo de agentes que, mal chegaram ao local, agarraram no suspeito e retiraram-no de uma viatura TVDE. A partir daí começou o terror para este homem, que acabou no hospital. Segundo o Ministério Público, a vítima foi rodeada e atirada ao chão. De seguida, os quatro agentes, entre eles Mário Vaz Maia, deram-lhe vários pontapés em todo o corpo, incluindo na cabeça. Quando os polícias chegaram à esquadra com o detido com as mãos atrás das costas, algemado, um superior hierárquico apercebeu-se das lesões e indicou que o homem, tendo em conta os ferimentos graves, tinha de ser levado ao hospital. Seguiram-se momentos de horror e humilhação. O homem foi ameaçado dentro da ambulância e também na unidade hospitalar. Quando pediu para ir à casa de banho, um dos agentes trouxe-lhe um balde, forçando o detido a urinar em frente a toda a gente na sala de espera na urgência.
Este é um dos muitos factos violentos em que são visados os 15 agentes da PSP detidos numa operação na passada terça-feira - a que se juntam outros nove já em prisão preventiva pelos mesmos indícios. Os agentes começaram na quinta-feira a ser interrogados no Campus de Justiça, em Lisboa.
Noutra situação ocorrida no mesmo ano, uma mulher também foi levada a um hospital com os pulsos em sangue devido à algemagem e às agressões e foi ameaçada de morte com a arma de serviço num corredor, enquanto esperava para ser ouvida. Um dos agentes agora detidos tirou a pistola e começou a rodá-la e a apontar à detida, o que lhe causou medo, denunciou a vítima.
Entre as muitas frases que constam no processo estão as seguintes: “Sabemos onde moras”, “isto não acaba aqui” ou “mesmo estando fora de serviço apanhas”.
O Ministério Público admite que a investigação não conseguiu identificar todas as vítimas e que há perigo de perturbação do inquérito. Entretanto, ontem, o único civil, segurança, e um dos agentes foram libertados.
Arguidos falam ao juiz
O advogado António Falé de Carvalho disse ontem ao CM que o agente da PSP que representa decidiu falar ao juiz de instrução. Os advogados tiveram acesso a um volume com mil páginas do processo, que estiveram ontem a consultar. Disse que o cliente estava “bem e sereno” apesar de detido.
“Injustiçados”
Tiago Melo Alves, que representa quatro dos agentes detidos, referiu que é cedo para adiantar explicações e admitiu que os agentes se sentem injustiçados.
MP descreve horror
O Ministério Público descreve factos de autêntico horror e pormenoriza as lesões que resultaram dos atos dos agentes, nomeadamente fraturas, dentes partidos e num dos casos uma lesão ocular que resultou em cegueira.
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