Mais sem-abrigo nas ruas, alguns com cursos superiores, centros de acolhimento esgotados e o aumento de pedidos às equipas que distribuem alimentos e agasalhos são um desafio cada vez maior para as instituições, algumas já sem capacidade de resposta.
"Hoje em dia ninguém está livre de ser sem-abrigo, uma situação que não escolhe idade, nem profissão" e que é ditada pelas "circunstâncias adversas da vida", contou à agência Lusa o presidente da Comunidade Vida e Paz (CVP), Jorge Santos.
Actualmente quem vive na rua já não é apenas o "desgraçado" com um historial de exclusão social: "Nós encontramos sem-abrigo que estiveram muito bem na vida, como empresários e advogados", afirmou. Esta situação é confirmada por Cláudia Silva, do Centro Acolhimento de Sem-Abrigo do Beato: "Não é uma maioria, mas encontramos pessoas licenciadas, com outro tipo de necessidades. São pessoas que cortaram com uma vida inteira de trabalho e neste momento encontram-se na rua. Isso cada vez mais nos está a bater à porta e as respostas não estão propriamente adequadas".
O perfil do sem-abrigo alterou-se também ao nível da idade, que diminuiu dez anos nos últimos dois anos, situando-se entre os 27 e os 30. São os homens que procuram maioritariamente ajuda porque a mulher consegue arranjar alternativas para não ir parar à rua, como recorrer à prostituição ou trabalhar nas limpezas, adiantou Cláudia Silva.
O Centro do Beato, em Lisboa, tem capacidade para 271 pessoas, mas "as respostas estão todas esgotadas", disse, salientando também as dificuldades vividas pelo centro, cuja verba que recebe mantém-se há 12 anos. Como é um centro de emergência não tem lista de espera: "Se não temos vagas obrigamos essa equipa a dar uma resposta" através da indicação para outras instituições, explicou.
A CVP vive a mesma situação: "Cada vez aparecem mais pessoas na rua, nomeadamente casais, a pedir ajuda devido ao desemprego, mas a instituição não consegue responder a todos", lamenta Maria da Glória.
O presidente da instituição acrescenta que, todas as noites, as 56 equipas da CVP, com cerca de 600 voluntários, percorrem 96 pontos de Lisboa e contactam cerca de 465 sem-abrigo. Uma procura que tem aumentado: "O sem-abrigo já conhece as carrinhas e os voluntários, mas agora estão aparecer pessoas que caíram no desemprego e que já não têm dinheiro para sobreviver, deslocando-se às equipas para ter alguma ajuda", adianta Jorge Santos.
O director do Centro de Acolhimento de Xabregas também fala de uma nova realidade encontrada pela equipa de rua. "Nos locais habituais onde se costumava encontrar unicamente pessoas com perfil de sem-abrigo, encontramos agora pessoas que trabalham, têm casa, mas sem recursos suficientes para pagar as despesas, recorrendo à carrinha para conseguir alimentos e a instituições para receberem roupa", conta João Barros.
Mas também existem pessoas que estão a passar necessidades mas não recorrem aos canais habituais de apoios sociais por vergonha, acrescenta. A directora da Acção Social da Assistência Médica Internacional lembra que as respostas as estas situações já eram diminutas e que a situação se complicou.
"Em termos de acolhimento os centros estão cheios, mas também já estavam antes da crise. Não podemos multiplicar as camas", diz Ana Martins. Apesar de haver muitos casos de desalojamento, Ana Martins salienta que, ao contrário do que se passa noutros países europeus, Portugal, por enquanto, ainda não tem famílias com crianças a viver na rua porque os centros regionais tentam encaminhar estas pessoas para quartos ou instituições.
"Antes da crise já éramos o país mais pobre da Europa. Esta crise só veio afundarmo-nos ainda mais em termos sociais", diz, lembrando que Portugal tem dois milhões de pobres há 30 anos.
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