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'Luvas' de 20 a 30 euros por cadáver para acelerar funerais no Santa Maria

Rede com uma dezena de funcionários alvo de investigação. Por mês, cada um poderia conseguir até 500 euros em subornos por funerárias.

13 de março de 2026 às 01:30

O valor em luvas 'por baixo da mesa', para despachar da morgue um corpo antes do outro, dando preferência às funerárias que pagavam, era de 20 a 30 euros, que era colocado num 'bolo' a distribuir pela dezena de funcionários da casa mortuária do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, que estavam dentro do esquema. Mas o grupo já assim funcionará há mais de duas décadas - como atestam denúncias que remontam a 2002 - o que permitiu aos mais antigos acumular uma pequena fortuna, com um ordenado mensal extra que poderia chegar aos 500 euros para casa um deles. Uma nova denúncia, em outubro de 2023, pela mão da atual ministra da Saúde, Ana Paula Martins, então presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, impulsionou uma investigação que o Ministério Público entregou à Polícia Judiciária e que, esta quinta-feira, levou a buscas na casa mortuária e nas habitações dos funcionários suspeitos. Apesar de terem sido apreendidas algumas provas, como registos em código, que serão analisados, não há ainda arguidos no processo, adiantou ao CM fonte oficial da PJ.

"O inquérito teve origem em denúncia do recebimento de quantias em dinheiro por funcionários desse serviço, pagas por agências funerárias, com o objetivo de os compensar pela preparação dos corpos de pessoas falecidas em meio hospitalar, permitindo, dessa forma, que as agências envolvidas procedessem ao levantamento dos corpos de forma mais célere. Factos que são suscetíveis de integrar a eventual prática do crime de recebimento ou oferta indevidos de vantagem", explicaram o Ministério Público e a PJ, que mobilizou na operação 'Rigor Mortis' investigadores da Unidade Nacional de Combate à Corrupção. Participaram ainda um procurador e um juiz.

As verbas reunidas pelos funcionários aderentes ao esquema era distribuídas num jantar semanal. Num "mês bom", como descreve fonte policial, um membro destacado do grupo poderia 'sacar' mais de 500 euros. 

Ao longo dos anos têm sido vários os esquemas semelhantes por todo o País. Em 2024, em Bragança, em 2023, em Aveiro, ocorreram os casos mais recentes, em que médicos, delegados de saúde, funcionários de morgues hospitalares e agentes de funerárias estiveram envolvidos em esquemas de libertação rápida de corpos a troco de subornos.

A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, que esta quinta-feira visitou o Hospital de Santa Maria horas após as buscas, não quis comentar a investigação que teve início após a sua denúncia. Já Carlos Martins, presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde Santa Maria, afirmou que estão a colaborar com a justiça e que vão aguardar serenamente o final da investigação. Adiantou ainda reuniu "com quem tinha de reunir internamente para tenta perceber algumas situações".

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