Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
9

MÃES ADOLESCENTES SÃO CADA VEZ MENOS

As mães adolescentes estão a diminuir em Portugal. De acordo com o estudo de uma equipa da delegação distrital de Évora da Associação para o Planeamento da Família (APF), em 1991 nasceram 107 bebés de mães com menos de 15 anos, número que desceu para 90 em 2001 (o estudo abarca estes dez anos).
6 de Julho de 2004 às 00:00
Otília Roque e Antónia Miranda, duas das autoras do estudo Mamãs de Palmo e Meio, falam do perigo de gerar vida num corpo de criança
Otília Roque e Antónia Miranda, duas das autoras do estudo Mamãs de Palmo e Meio, falam do perigo de gerar vida num corpo de criança FOTO: Madalena Lino
Um total de 9748 bebés nasceram em Portugal em 1991, de mães com idades entre os 15 e os 19 anos. Dez anos mais tarde nasceram 6783. Esta tendência acompanha o escalão das mães menores de 20 anos. Em 1991, elas deram à luz 9855 crianças e, uma década depois, 6873. A estatística não mente e é fácil de analisar: a natalidade diminuiu no nosso país e as mães adolescentes fazem parte dessa tendência. Mas, apesar do decréscimo, Portugal está ainda no topo do 'ranking' dos países europeus em relação à gravidez na adolescência.
Esta queda foi sentida em todas as regiões. Em termos de números brutos, o fenómeno teve maior expressão na região Norte, em Lisboa e no Vale do Tejo. Estas regiões apresentam cerca de dois terços dos casos do País. Quanto às percentagens, o Alentejo teve honras de destaque, motivo que, aliás, levou à realização do referido estudo, intitulado "Mamãs de palmo e meio: gravidez e maternidade na adolescência". A Madeira (1997) e os Açores (de 1998 a 2001) estiveram também nos lugares cimeiros.
A trabalhar no terreno, na área do distrito de Évora, com jovens mães e seus companheiros, Otília Roque, psicóloga e coordenadora do referido estudo, afirma que as pequenas mães com quem tem trabalhado, em geral não têm um projecto de vida. "Para a maioria delas, a maternidade é uma mudança de estatuto. Depois de ultrapassado o receio inicial, e após contarem à família que esperam uma criança, é forte o desejo de que a barriga cresça. A partir desse momento, a criança é desejada".
De mentes libertas para uma vida nova, 'mamãs de palmo e meio' e respectivos companheiros (quase sempre mais velhos dois anos ou mais), poucas vezes passam pela angústia do onde se irá buscar o sustento do bebé. "Eles não têm a consciência de um adulto, pelo que a maioria acha que alguém os há-de ajudar. É um logo se 'verá'…"
Novas de mais para preocupações de adultos, as mães adolescentes não têm ainda os seus corpos cem por cento preparados para o crescimento de um ser dentro delas. "O risco de problemas durante a gravidez é maior nas raparigas menores de 17 anos mas, entre esta idade e os 19 anos existe também um risco biológico. Além de a estrutura física delas não estar completa, na maior parte dos casos, as raparigas contam tarde sobre o seu estado, pelo que deixam passar a altura indicada para fazer a vigilância da gravidez", explicou a enfermeira Antónia Martins, que exemplifica: "Para não se notar a barriga, não comem e adoptam uma postura errada, tentando assim encolhê-la". Do ponto de vista psicológico, as mazelas são frequentes.
Em geral, também as crianças são afectadas. Desde o momento do nascimento e durante a infância, podem ser afectadas a nível orgânico e comportamental.
VIOLÊNCIA FAZ CRIANÇAS CRUÉIS
As crianças que maltratam animais ou ateiam fogo às coisas intencionalmente podem estar apenas a reagir a situações de violência que tenham presenciado em casa.
É essa a conclusão de um estudo divulgado nos Estados Unidos e que também relaciona actos de violência doméstica com o surgimento de uma predisposição na criança para a delinquência na juventude e o crime em idade adulta.
"Casos de violência doméstica afectam a criança no desenvolvimento da sua personalidade", considera o psicólogo português Rui Manuel Carreteiro. "Quando uma criança maltrata um animal, ela projecta os seus receios sobre um ser mais frágil e vulnerável. Mais tarde, pode ser um homem, e temos um caso de homicídio", disse ao CM, acrescentando que as crianças estão a ser cada vez mais expostas a esse tipo de situações. "Actualmente temos uma sociedade quase de psicopatas. Ou pelo menos estamos a evoluir para isso."
GRAVIDEZ FOI UMA ALEGRIA
Liliana Arraia tinha 17 anos quando teve o Ricardo. Agora, com 19 anos, esta mãe adolescente tem já outra bebé, de três meses, e espera que a sorte lhe bata à porta de forma a conseguir arranjar um emprego. "Quando soube que estava grávida fiquei contente.
Há sete meses que namorava e não tomava nada para me prevenir. Depois passei a tomar a pílula mas não foi o suficiente e voltei a engravidar. Aí, sim, fiquei esmorecida. O Ricardo era ainda muito pequenino e eu não queria ter mais filhos."
Proveniente de uma família numerosa, de baixos recursos, Liliana afirma nunca ter tido medo do que quer que fosse. Nem do parto.
Ver comentários