Numa casa da aldeia raiana de Penha Garcia, em Idanha-a-Nova, tem lugar hoje uma festa inédita em Portugal: Catarina Carreiro festeja o seu 113.º aniversário.
Segundo o ‘Guinness Book of Records’, é a segunda mulher mais velha do Mundo. À sua frente está apenas a norte-americana Charlotte Benker, que tem mais um ano e 54 dias.
‘Ti Catrina d’Avó’ nasceu no século XIX – a 9 de Janeiro de 1891 –, atravessou o XX e “garante” que vai morrer no XXI. Nunca saiu da região de Penha Garcia onde sempre trabalhou na lavoura e teve como transporte preferido um burro.
A ‘avozinha de Portugal’ vai levantar-se hoje por volta do meio dia, comer alguma (pouca) coisa e sentar-se o resto do dia à lareira, na companhia de alguns dos seus seis filhos (quatro já faleceram), 26 netos,41 bisnetos e sete trinetos. Ao final da tarde, participa numa pequena festa organizada pelos familiares.
“Vai ser uma festa pequena, mas sentida, porque ela está muito debilitada e tememos que adoeça”, refere António Pascoal, de 76 anos, filho da centenária, acrescentando: “Ela também não quer muita confusão e nós temos de lhe fazer a vontade, senão fica triste”. Apesar da idade e de alguma fragilidade física, Catarina Carreiro ainda se move pelos próprios pés, não lhe é conhecida nenhuma doença e nos últimos anos apenas foi traída pelo desgaste dos ouvidos.
Mas tem uma memória impressionante, ao ponto de contar muitas aventuras da sua vida: esteve presa em Espanha por contrabando, foi atingida por um raio, nunca viu o mar (a viagem mais longa foi a Castelo Branco).
“Sofri muito, mas quando nasceram os meus filhos foi uma grande alegria”, afirma Catarina Carreiro, que ficou viúva há 25 anos e vive desde os 100 anos em casa dos filhos, em sistema de rotatividade, que a tratam “com muito carinho”.
Quando confrontada com o facto de ser das pessoas mais velhas do Mundo, desvaloriza: “Se é verdade, é por obra de Deus. Estou pronta para morrer há muito tempo, mas ainda não aconteceu o dia”.
CONTRABANDO
Catarina Carreiro tem muitos episódios caricatos na sua longa vida, mas aquele que primeiro lhe vem à memória é a sua estadia numa prisão espanhola por contrabando: “Tinha 60 anos e fui acusada de tráfico de bolotas para porcos. Ao fim de sete dias fugi”.
ATINGIDA POR RAIO
Num dia de tempestade em meados dos século XX, a idosa esteve às portas da morte quando foi atingida por um raio. Recebeu a extremaunção, mas foi curada por um barbeiro: “O raio caiu-me em cima, furou o chapéu e o lenço, e fiquei toda queimada”.
VÁRIOS REGIMES
A ‘Ti Catrina d’Avó’ nasceu no tempo da Monarquia, assistiu à implantação da República e experimentou a ditadura e, embora longe, vibrou já na velhice com o 25 de Abril. Conheceu reis, ditadores, presidentes e ministros.
PARTOS DIFÍCEIS
Esta idosa recorda com lágrimas nos olhos o nascimento – sem assistência médica – dos filhos. “Cada vez que ficava grávida era uma alegria. Tive dez filhos, dois dos quais melgos (gémeos) mas não tive mais por sorte”, disse.
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