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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Manifestantes na mira da Justiça

Alguns habitantes de Canas de Senhorim estão a ser notificados e identificados pela GNR, por ordem do Ministério Público do Tribunal Judicial de Nelas, por suspeita da autoria de crimes alegadamente cometidos durante os protestos que tentaram impedir a saída de camiões carregados com urânio.

07 de janeiro de 2005 às 00:00

Nas últimas semanas, patrulhas da GNR têm batido às portas de alguns canenses para proceder à sua identificação por alegada prática de actos ilícitos. Até ao momento, já foram identificadas quase três dezenas de pessoas.

Na altura dos incidentes, os populares – numa acção inserida na luta para a criação do concelho de Canas de Senhorim, que já dura há quase três décadas –, tentaram impedir a saída do urânio sentando-se na via pública. A GNR só conseguiu desimpedir a via recorrendo à força do corpo de intervenção.

Os camiões acabaram por sair das Minas de Urgeiriça mas, no dia 23 de Novembro, os populares não se deram por vencidos e dirigiram-se para a estação da linha-férrea e mantiveram-na cortada à circulação durante toda a tarde.

Nesse momento, a GNR tinha no terreno um técnico que filmou todos os pormenores da operação e dos protestos e são essas imagens a principal prova contra os manifestantes que agora incorrem num processo que em último caso poderá dar pena de prisão.

Para o capitão António Valente, relações públicas da Brigada Territorial n.º 5 da GNR, os manifestantes foram informados dos crimes que poderiam incorrer “pelo que a GNR apenas está a cumprir as ordens do Ministério Público”. “O comandante da força avisou os manifestantes que estavam no local para a possibilidade de eles protagonizarem actos que podem ter responsabilidade criminal, como o corte de estradas e desobediência à autoridade”, afirmou o capitão Valente, acrescentando: “As ameaças, agressões e injúrias aos militares da GNR não ficaram esquecidas”.

Luís Pinheiro, líder do Movimento de restauração do Concelho de Canas de Senhorim e o principal rosto dos protestos está revoltado com o que está a acontecer, considerando que estas notificações “fazem lembrar os tempos do fascismo” e querem “calar o povo”.

“É uma vergonha. Estão a identificar quem aparece na imprensa ou quem está à frente da luta. O objectivo é claramente fazer com que a gente se cale mas nós vamos continuar a lutar e vamos a Tribunal responder porque temos o direito de nos manifestar”, diz Luís Pinheiro que também já foi notificado.

“Os canenses vão aguardar com serenidade o desenvolvimento do processo”, concluiu.

CORTE DE VIAS

Nos três dias de protesto os populares de Canas de Senhorim tentaram travar a saída de camiões carregados com urânio cortando a estrada de acesso às Minas da Urgeiriça. Num dos dias cortaram a linha férrea da Beira Alta.

AGRESSÕES

Na altura em que a situação entre a GNR e os populares esteve ‘quente’, alguns militares foram agredidos pelos oponentes. Um deles levou com uma pedrada na face. Alguns manifestantes também sofreram ferimentos.

PENA DE PRISÃO

O artigo 288.º do Código Penal Português prevê penas de prisão até 10 anos para quem cometer o crime de atentado à segurança de transporte por ar, água ou caminho-de-ferro.

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