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Correio da Manhã

Portugal
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Marcus ouvido como vendedor de armamento

Marcus Fernandes, o luso-brasileiro de 33 anos que cumpre uma pena de 25 anos de cadeia pelo homicídio de dois agentes da PSP, em Março de 2005, na Amadora, foi ouvido pela Polícia Judiciária (PJ) como testemunha, no âmbito de uma investigação alargada sobre tráfico de armas.
9 de Janeiro de 2008 às 00:00
Esta diligência, apesar de ter decorrido à margem do inquérito da PSP que conduziu ao desmantelamento da alegada rede de tráfico de armas que operava no seio daquela força de segurança, e que ontem começou a ser julgada no Tribunal da Boa-Hora, em Lisboa, envolve suspeitos ligados ao meio policial, e aos negócios da noite.
Quando deteve Marcus Fernandes, apenas 24 horas depois de este ter consumado os homicídios dos dois agentes da PSP da Amadora, a PJ apreendeu-lhe, numa casa de Melides, Grândola, um arsenal de armamento pesado.
Foi de imediato aberto uma investigação, que levou Marcus Fernandes a ser ouvido na Direcção Central de Combate ao Banditismo (DCCB), nas semanas que se seguiram.
Inquirido na qualidade de testemunha, o luso-brasileiro terá esclarecido a proveniência das armas, de calibre proibido, que acumulou ao longo de anos.
Empenhada, na mesma altura, na fase de inquérito ao homicídio de Irineu Dinis, o agente da PSP de Alfragide que foi abatido a tiros de arma automática e caçadeira a 17 de Fevereiro de 2005, na Cova da Moura, Amadora, a PJ quis saber se Marcus tinha alguma coisa a ver com a venda das armas aos dois autores do crime.
As respostas de Marcus não terão, soube o CM, sido conclusivas. No entanto, no mesmo interrogatório, o arguido confessou ter sido, antes da sua detenção, receptor frequente de pedidos para compra de armamento pesado.
Agentes de forças de segurança no activo e na reserva, militares, e muitos indivíduos ligados ao negócio da noite ter-se-ão, segundo o luso-brasileiro, mostrado interessados nas armas que este vendia.
Marcus Fernandes referiu mesmo, acrescentou fonte ligada ao processo, ter sido contactado por arguidos e testemunhas do processo Passerelle, que está em fase de julgamento no Tribunal Judicial da Comarca de Leiria.
APREENDIDAS CENTENAS DE ARMAS
Após um ano de trabalho de campo, a Divisão de Investigação Criminal da PSP de Lisboa lançou, no final de Março de 2006, uma megaoperação destinada ao desmantelamento de uma rede que se dedicava ao licenciamento ilegal de armas e ao facilitamento da importação de armamento. Tudo começou em 2005, com uma simples conversa entre o subintendente Waldemar Coroado (então director do Departamento de Armas e Explosivos da PSP) e o seu motorista. Este assegurou ao oficial ter ouvido colegas afirmar que atribuíam licenças de armas a pessoas, em troca de pagamentos em dinheiro. A investigação foi de imediato aberta, tendo a Divisão de Investigação Criminal da PSP de Lisboa acabado por levar a cabo mais de uma centena de mandados de busca. Cinquenta pessoas foram detidas, entre as quais agentes e funcionários civis da PSP. Centenas de metralhadoras, pistolas e revólveres de calibres proibidos a civis, granadas, espingardas, e outras armas de guerra, foram apreendidas.
CHEFE DE REPARTIÇÃO FALA EM CABALA
Celestino Soares, antigo chefe de repartição na Divisão de Armas e Explosivos da PSP, negou a prática dos dois crimes de corrupção passiva pelos quais está indiciado no processo do alegado tráfico de armas na Polícia. O técnico-superior, único dos principais arguidos do processo que aceitou prestar declarações na sessão inaugural que ontem decorreu no Tribunal da Boa-Hora, em Lisboa, disse mesmo achar estar a ser alvo de uma ‘cabala’. Celestino Soares integrou uma comissão de peritos que foi a Bruxelas discutir novas directivas sobre legalização de armas, e que conduziram à formulação da nova lei que regulamenta este sector em Portugal. Por esse facto, refere, “desencadearam-se invejas no seio da PSP”. “Isso provocou dor de cotovelo em algumas pessoas, que me fizeram a cama”, opinou. Celestino Soares negou também, ao contrário do que vem na acusação, que alguma vez tenha assinado despachos que permitiram a transferência definitiva de armas para Portugal. “O meu trabalho era dar pareceres. Os despachos eram do Director Nacional da PSP”, acrescentou o arguido.
OUTROS ASPECTOS
SILÊNCIO
Henrique Martinho e Fernando Tavares (ambos agentes da PSP), e Celestino Rei (sócio do primeiro na gestão de uma espingardaria), respondem por 14 crimes de corrupção activa para acto ilícito. Todos se recusaram a prestar ontem declarações.
FISCALIZAÇÃO
Celestino Soares estranhou que, no organigrama da PSP que consta no processo, não conste qualquer referência à Divisão de Fiscalização do Departamento de Armas que, segundo ele, “tinha responsabilidade única na fiscalização dos armeiros”.
APREENSÃO EM CASA
As buscas que a PSP efectuou à residência de Celestino Soares, permitiram apreender um revólver, uma caneta de gás pimenta e material pirotécnico. O antigo chefe de repartição do Departamento de Armas e Explosivos assegurou ao colectivo de juízes que se tratava de armas de ornamentação, que serviram até para demonstrações feitas ao Governo.
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