Luís Miguel Militão – português emigrado em Fortaleza que em Agosto de 2001 orquestrou o sequestro e assassinato de seis compatriotas – terá liderado no Verão deste ano um plano para sequestrar um político brasileiro em plena campanha eleitoral e exigir um resgate de 1,5 milhões de reais (547 mil euros), ideia que foi abortada pela Polícia que interceptou conversas telefónicas entre Militão e vários criminosos seus ‘subordinados’. A notícia foi publicada no jornal ‘O Povo’, de Fortaleza, e confirmada ontem ao CM por fonte da Polícia Federal brasileira.
Militão, tal como o CM ontem noticiou, organizou este e outros sequestros por telemóvel do interior da cadeia, onde cumpre 30 anos (o máximo permitido no Brasil) da pena de 150 a que foi condenado pela morte dos portugueses.
As autoridades não apuraram o nome do político que seria sequestrado – até porque se registaram simultaneamente eleições presidenciais, legislativas (nacionais e estaduais) e para governadores, envolvendo centenas de candidatos.
No dia 22 de Agosto, dois dos comparsas de Militão discutiram o golpe via telemóvel e foram apanhados numa escuta. O sequestro devia durar dois dias, tempo suficiente para a mulher do político levantar 1,5 milhões de reais num banco (sob a desculpa que seria para a campanha).
Os sequestradores iriam actuar disfarçados de polícias, para evitar que a mulher chamasse as autoridades, temendo que a Polícia estivesse envolvida no crime. Eles combinaram que Militão, como chefe do grupo, actuaria como negociador do resgate.
Nesse dia, cerca de meia hora mais tarde, Militão foi apanhado numa escuta em que era informado – por três homens – dos detalhes do plano. Militão terá encontrado uma falha: nenhum banco do estado do Ceará iria libertar 1,5 milhões de reais em tão pouco tempo.
Militão conversa depois ao telemóvel com outro indivíduo e diz-lhe: “Tem outro servicinho aqui, de um político aí.” Mais um telefonema e minutos depois Militão terá encontrado a solução. Em vez do político devia ser sequestrada a mulher ou o filho. “Normalmente, quando o cara faz um sequestro desse tem de pegar o filho, a mulher e não o cara que assina. Se pegar o cara que assina, como é que vai pegar o dinheiro?”, terá comentado Militão.
Este terá sido um dos muitos sequestros liderados por Luís Militão do interior da cadeia onde está preso – o Instituto Penal Paulo Sarasate, conhecido por ‘Selva de Pedra’, o de maior segurança no Ceará. Foi daí que comandou também o plano para sequestrar um bancário e deu informações e dicas aos operacionais: actuar disfarçados de polícias para criar desconfiança; e usar menores para ir buscar os resgates. Queixou-se mesmo da ‘qualidade’ dos bandidos do Ceará, dizendo que “não valem um c...” e que ia recrutar “pessoal de S. Paulo”.
Militão está agora num regime especial de vigilância, com mudança periódica de cela e revista diária.
O caso está a gerar apreensão no Brasil, sendo Luís Militão – alcunhado de ‘Miguel Português’ – descrito como o principal responsável da “escola de sequestros” nas cadeias do Ceará, adiantou o procurador Evilásio Alexandre. Segundo o magistrado, foram detidas 15 pessoas – entre elas o director de uma cadeia, que facilitava a entrada de telemóveis, droga e prostitutas na prisão.
Luís Miguel Militão Guerreiro, de 36 anos, nasceu a 19 de Maio de 1970 no Barreiro, distrito de Setúbal. Exercia a profissão de comerciante no Brasil e é casado com Maria Leandra Cavalcante, brasileira, que estava grávida na altura do crime. Nunca chegou a ver a filha. Foi condenado em Fevereiro de 2002. Já na prisão, Militão começou a ser investigado por suspeita de liderar uma rede de angariação de prostitutas, incluindo menores. Entretanto já tentou evadir-se quatro vezes da prisão.
Foi na madrugada de 12 de Agosto de 2001 que Luís Militão e quatro cúmplices torturaram, roubaram e assassinaram seis empresários portugueses, que viajaram para Fortaleza em férias a convite do próprio Militão, amigo de um deles. Luís Militão e o cunhado ‘Cláudio’ foram receber os portugueses ao aeroporto de Fortaleza, conduzindo-os imediatamente ao bar Vela Latina, onde se encontravam já três outros cúmplices.
Os portugueses foram ameaçados e agredidos, entregando dinheiro, valores e os cartões de crédito e códigos. Militão abandonou o local para confirmar os códigos, após o que telefonou para o Vela Latina a dar a ordem de execução. As vítimas foram enterradas vivas, numa vala cavada para o efeito no interior do Vela Latina.
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