A Direcção Central de Combate ao Banditismo (DCCB), departamento da Polícia Judiciária contra a criminalidade violenta, está a investigar o misterioso desaparecimento de José Luís d’Orey, de 48 anos, oriundo de uma das mais conhecidas famílias portuguesas e casado com uma Mello – que não é visto desde a manhã de segunda-feira, dia 9, quando deixou os cinco filhos à porta do colégio, em Azeitão, arredores de Setúbal.
José Luís, com vida confortável no Monte dos Barris, no coração da Serra da Arrábida, despediu-se da mulher na segunda-feira de manhã e, como era hábito, chegou às 08h00 ao colégio dos filhos ao volante de um espaçoso Renault Scenic cinzento.
Tinha uma hora para chegar a Lisboa. Era aguardado para uma reunião na ITAU, empresa de equipamentos de hotelaria, na Avenida da República. Faltou. Os colegas de trabalho ainda pensaram que ele estava doente: ligaram-lhe para casa ao princípio da tarde. A mulher ficou a saber que o marido estava desaparecido.
Segundo fontes policiais, José Luís d’Orey transportava no carro uma “considerável” quantia em dinheiro. Ainda na segunda-feira à tarde, a mulher tentou reconstituir os passos do marido – em vão: só os funcionários do colégio o viram. Os d’Orey são conhecidos na Aldeia da Piedade, povoação próxima da herdade da família, na Arrábida. Naquela manhã, ninguém reparou nele.
A Polícia Judiciária, que já começou a trabalhar no caso, deu instruções rigorosas à família para calar o assunto a fim de não prejudicar as investigações. A PJ não afasta a possibilidade de José Luís d’Orey ter sido raptado e mantém sob escuta telefones de familiares próximos à espera de qualquer contacto. Ontem à noite, o carro ainda não tinha sido encontrado.
A PJ investiga ainda a hipótese de se tratar de uma fuga planeada: “Se não está sequestrado, pode ter fugido à procura de uma vida nova, o que não é crime, ou fugiu de um grave problema financeiro”, diz ao CM uma fonte policial.
UM CASO DE RAPTO COM RESGATE
Miguel Cintra, único filho do empresário ex-presidente do Sporting, ficou para a história do crime em Portugal: ele foi a primeira vítima de um rapto com pagamento de resgate. O caso agitou o Verão de 1998. Miguel, que nessa altura aspirava a criador de cavalos, foi atraído aos arredores de Évora, na manhã de 22 de Julho, para comprar um puro-sangue Lusitano – uma estampa de animal, como lhe disseram ao telefone. Partiu imediatamente sem saber que ia ao encontro de uma armadilha.
Os raptores não contaram com o acaso de José Sousa Cintra se encontrar no Brasil e contentaram-se com o dinheiro que Miguel podia movimentar sem o pai: cerca de 60 mil contos em várias contas domiciliadas numa agência bancária da Avenida da Liberdade, em Lisboa.
Obrigaram-no a dois telefonemas no local de cativeiro: falou com o gerente do banco, para juntar o dinheiro disponível (cerca de 60 mil contos) e telefonou à namorada, a quem deu instruções sobre como fazer chegar o resgate aos sequestradores. Miguel foi libertado ainda na mesma tarde. A Polícia Judiciária prendeu os sequestradores ao fim de três dias e recuperou o dinheiro.
GERAÇÃO COM PERGAMINHOS
Os d’Orey descendem de um prussiano, Guilherme Achilles, revolucionário e aventureiro que emigrou para Lisboa em 1851. A sociedade lisboeta recebeu com reservas este homem endinheirado que escondia certamente um passado de mistério. Guilherme, um romântico incorrigível, com um especial gosto pela música, fez furor no São Carlos e nos saraus elegantes da capital. Estabeleceu-se como comerciante e iniciou um ramo de negócios que ainda ocupa parte da família: a equipagem de navios.
Hoje, centenas de descendentes do prussiano Guilherme preservam o apelido d’Orey – a que pelo casamento têm juntado outros não menos sonoros: Mello, Bastos, Roquete, Athouguia. Têm interesses na Banca, na gestão, no imobiliário, no turismo e nas viagens. José Luís Lopes de Albuquerque d’Orey, misteriosamente desaparecido, está ligado ao imobiliário, ao turismo de habitação e ao comércio da restauração.
ANIVERSÁRIO
José Luís d’Orey, alto e de compleição forte, alguns cabelos brancos, está desaparecido desde a véspera do aniversário da filha mais nova. Em 10 de Outubro, a menina completou cinco anos.
CARRINHA
A PJ, com a colaboração da GNR e da PSP, procura localizar o monovolume de José d’Orey: um Renault Scenic com a matrícula 15-BG-35. A PJ sabe que a carrinha não passou pela Via Verde das auto-estradas.
DINHEIRO
José d’Orey, além de negócios imobiliários e de turismo de habitação, é agente comercial da ITAU, companhia que vende equipamentos para restaurantes e cafetaria. Quando desapareceu, transportava considerável valor em dinheiro que devia ter entregado na empresa.
ARRÁBIDA
José Luís d’Orey vive com a mulher e os cinco filhos (entre os cinco e os 15 anos) numa propriedade da Serra da Arrábida – o Monte dos Barris.
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