No dia em que Salazar caiu

A 3 de Agosto de 1968, Salazar, que estava instalado no Forte de Santo António do Estoril para um curto período de descanso mais a sua fiel governanta, Maria de Jesus Caetano Freire, levantou-se cedo – já o calista, Augusto Hilário, o aguardava.
03.08.06
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No dia em que Salazar caiu
Ninguém lhe disse que já não era chefe de Governo. A farsa durou 20 meses. Foto D.R.
O presidente do Conselho olha a barra do Tejo e deixa-se cair sobre uma velha espreguiçadeira de lona que se partiu aos bocados. Salazar bate com a cabeça no chão. O calista, obrigado a jurar que nem uma palavra diria sobre o acidente, ajuda-o a levantar-se e a sentar-se noutra cadeira.
Salazar era visto pelo seu médico assistente, professor Eduardo Coelho, de duas em duas semanas. A próxima visita seria daí a dois dias. Só então o chefe do Governo, ainda no forte, lhe contou que tinha batido com a cabeça no chão. O médico não adivinhou nada de bom. Salazar, de 79 anos, não tinha uma saúde de ferro.
O professor Eduardo Coelho terminou a consulta preocupado. E deixou ao chefe do Governo um sério aviso: mandasse chamá-lo ao mínimo sintoma.
Salazar volta ao trabalho. Queixa-se de dores de cabeça e arrasta ligeiramente a perna direita. Ainda assim, não manda avisar o médico e mergulha obstinado numa complexa remodelação do Governo.
O Governo reúne-se pela primeira vez em 3 de Setembro. Salazar está pior. Não fala, limita-se a ouvir. Está pálido e curvado. Os ministros abandonam a reunião convencidos de que ele está muito doente.
Apenas em 5 de Setembro, o presidente do Conselho resolve chamar o médico. Eduardo Coelho percebe imediatamente que o traumatismo craniano tinha provocado um hematoma. Salazar teria de ser operado, o mais tardar, no dia seguinte. O médico pede ao filho Eduardo Macieira Coelho, também ele médico, para procurar o neurocirurgião Moradas Ferreira. “Veja lá se é alguém da Situação” – avisa a fiel governanta do velho ditador, Maria de Jesus.
Moradas Ferreira está incontactável, de férias na Madeira. É chamado outro cirurgião: Álvaro Athayde, director dos serviços de neurocirurgia dos Hospitais Civis de Lisboa, que observa Salazar, em 6 de Setembro, e decide interná-lo.
Ainda nessa noite, Salazar é submetido a exames nos hospitais de São José e dos Capuchos. Está cada vez pior: não consegue responder às mais simples perguntas e nem se recorda em que Universidade se formou. Os médicos decidem operá-lo imediatamente. O sexto piso do Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, é evacuado. O presidente do Conselho, às 23h00, dá entrada no quarto 68.
A operação, conduzida por dois neurocirurgiões, Vasconcelos Marques e Álvaro Athayde, terminou com êxito ao nascer do sol. Nos dias seguintes, o presidente do Conselho passeia pelo quarto e conversa. Ganha vida.
Mas, a 16 de Setembro, sofre um profundo acidente vascular do lado direito do crânio. Fora operado do lado esquerdo para trepanação do hematoma. Entra em coma profundo. Os médicos perdem esperança. A morte é esperada a todo o momento.
Manuel Nazaré, médico e amigo pessoal de Salazar, ficou convencido de que o rebentamento da artéria cerebral se deveu aos copinhos de vinho do Porto e de Aveleda que o presidente do Conselho tanto apreciava e a governanta lhe deu às escondidas nos dias que se seguiram à operação. Os médicos, agora, não têm a mais pequena dúvida: mesmo que sobreviva à trombose, Salazar ficará inválido.
Américo Tomás, convoca o Conselho de Estado para o dia 17. Os conselheiros estão divididos quanto ao sucessor. De todos candidatos, Marcelo Caetano, catedrático de prestígio, é o mais ambicioso e o que tem mais experiência política. Américo Tomás convida-o, na noite de 26 de Setembro, para formar Governo. Dá-lhe posse no dia seguinte.
Salazar sobrevive à trombose, mas fica muito debilitado. Abandonou o Hospital da Cruz Vermelha e regressou à residência oficial de São Bento. Ninguém lhe disse que estava reformado e já não era chefe do Governo. Continuou a viver na residência oficial e recebia antigos ministros, que faziam de conta que ainda mandava. A farsa durou 20 meses. Terminou com a morte, na manhã de 27 de Julho de 1970. Tinha 81 anos.
OS ANOS DO SALAZARISMO
1889 - 28 Abril – Nasce António de Oliveira Salazar, no lugar de Vimieiro, em Santa Comba Dão. Reina em Portugal D. Luís I.
1917 - Inicia a carreira de professor de Economia e Finanças em Coimbra. Portugal participa na I Guerra Mundial. Surgem as aparições de Fátima.
1926 - 28 Maio – Um golpe militar derruba o regime. Salazar é ministro das Finanças do primeiro Governo da ditadura, chefiado por Mendes Cabeçadas.
1932 - É nomeado presidente do Conselho de Ministros. Cinco anos mais tarde, Salazar é alvo de um atentado à bomba, mas sai ileso.
1945 - Fim da II Guerra Mundial. Salazar decreta luto nacional pela morte de Hitler ao mesmo tempo que manifesta satisfação com a vitória dos Aliados.
1951 - Morte do presidente Carmona. Os monárquicos querem a restauração, mas Salazar lança o general Craveiro Lopes para a Presidência da Repúbllica.
1958 - Eleições presidenciais. Humberto Delgado faz campanha apoteótica. Questionado sobre o que fará a Salazar se ganhar, diz: “Obviamente, demito-o”.
1961 - Considerado como o ‘annus horribilis’ de Salazar. Desde o assalto ao paquete ‘Santa Maria’, a chacina de colonos em Angola, ao desvio do avião da TAP.
1968 - Manifestações de estudantes contra a guerra colonial. Mário Soares é deportado para S. Tomé, por dar informações sobre o escândalo do ‘Ballet Rose’.
1968 - 3 Agosto – Salazar cai da cadeira e bate com a cabeça. É operado a um hematoma. Dois anos depois, a 27 de Julho de 1970, morre em Lisboa.

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