Um novo medicamento contra a dependência de heroína, droga que mais consumidores leva a pedirem tratamento, está em vias de aprovação pela Agência Europeia do Medicamento (EMEA) da União Europeia.
O medicamento em causa, com o nome comercial Suboxone, tem como princípios activos a buprenorfina (que, tal como a metadona, faz de substituto) e a naloxona (antídoto opiáceo, ministrado em caso de sobredosagem, vulgo overdose).
A buprenorfina em altas doses já hoje é usada como terapia de substituição, sob o nome de Subutex. Serve de alternativa à metadona, sobre a qual tem a vantagem de um ‘desmame’, ou desabituação, mais fácil.
O novo medicamento, Suboxone, “está em fase de avaliação na EMEA”, segundo afirmou ao CM Ana Nogueira, responsável pelo laboratório que o fabrica.
A mesma responsável adianta esperar a aprovação “para Setembro ou Outubro” e a “venda em 2007”.
De venda em farmácia, mediante receita especial, o Suboxone combina a buprenorfina e a naloxona numa proporção de “quatro para um”. O laboratório prevê comercializar comprimidos sublinguais de oito e dois miligramas de buprenorfina com dois e 0,5 miligramas de naloxona, respectivamente.
Segundo explicou ao CM o director das Taipas, Luís Patrício, “a vantagem do novo medicamento reside na impossibilidade de utilização indevida por via endovenosa, ao contrário da buprenorfina por si só”.
A naloxona não é absorvida por via sublingual e por isso não faz efeito. Mas, quando injectados, os comprimidos “produzem uma sensação de privação ou ressaca”, assim “dissuadindo o uso indevido”, explica Ana Nogueira.
Luís Patrício acrescenta que na Finlândia, único país europeu onde já foi testado o novo medicamento, os médicos locais “não observaram diferenças ao nível de privação entre o Suboxone e o Subutex”.
Já o ex-director de um centro de toxicodependência da Grande Lisboa, embora admita a utilidade de “mais um recurso terapêutico”, classifica o medicamento de “perverso”: “se te portas mal [injectas], sofres”.
VINTE E UM MIL EM SUBSTITUIÇÃO
Dos 31 822 toxicodependentes que estiveram em tratamento durante 2005, 21 054 foram integrados em programas de substituição opiácea (por metadona ou buprenorfina), correspondendo a cerca de 67 por cento do total. Entre os utentes dos programas de substituição, por cada três que fazem metadona, um usa buprenorfina. Enquanto os toxicodependentes integrados em programas de metadona têm de fazer a toma diária em alguma estrutura de tratamento (Centro de Atendimento a Toxicodependentes – CAT) ou centro de saúde, em meio livre, ou farmácia prisional (quando reclusos), os utentes de buprenorfina podem adquirir o medicamento na farmácia, mediante receita especial, com ou sem o recurso a uma terceira pessoa de confiança. Pela maior facilidade de acesso e mais fácil ‘desmame’ ou desabituação, a percentagem de toxicodependentes a fazer tratamento de substituição com buprenorfina tem vindo a crescer, em especial na Delegação Regional de Lisboa e Vale do Tejo.
ALTA DOSE
A buprenorfina em altas doses (8 mg, 2 mg ou 0,4 mg) já hoje é usada como terapia de substituição. A sete unidades por cada caixa, os preços ao público são de 24,68 (8 mg), 8,22 (2 mg) e 3,15 euros (0,4 mg), respectivamente. A comparticipação estatal é de 40%. A buprenorfina é também vendida como analgésico, sendo os comprimidos doseados a 0,2 mg.
FINLÂNDIA
Aprovado nos Estados Unidos, a Finlândia é o único país europeu onde já se testou o Suboxone. Luís Patrício atribui a “excepção” europeia aos indicadores elevados de “abuso da buprenorfina, por via injectável” naquele país.
GRAVIDEZ
As toxicodependentes grávidas beneficiam da substituição por buprenorfina, em vez de metadona. Os sintomas de privação da buprenorfina no recém-nascido são mais fácil e rapidamente tratáveis do que a dependência de metadona.
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