page view
Imagem promocional da micronovela
MICRONOVELA

Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

Onde estão os ossos de Armando?

A página 31 do livro de registos do Cemitério de São Pedro de Penaferrim (Sintra) não mente: o n.º 6037 corresponde a Armando Ferreira Lobo, falecido em 13 de Maio de 1982 – enforcou-se na prisão – e sepultado cinco dias depois, no talhão n.º3, destinado aos presos e funcionários da prisão do Linhó.

23 de maio de 2005 às 00:00

Durante mais de 22 anos a família cumpriu com as cerimónias de respeito pelo defunto – velórios, deposição de flores, rezas. Mas quando foi solicitada para a exumação dos restos mortais, ficou chocada. “Começaram a desenterrar os ossos e vi logo que não era o meu pai. Eram sapatos de salto alto e ele foi enterrado com botas pretas”, recorda, amargurado, o filho Alberto Lobo.

A surpresa foi maior quando, depois do coveiro retirar os restos mortais de uma mulher, surgiu outro corpo por baixo. Também ele feminino. “O meu pai foi o primeiro a ser enterrado. Naquela altura não se enterravam ali mulheres”, garante Alberto Lobo.

Da roupa que Armando levou para a cova, nada. Nem vivalma do crucifixo de Santo António em ouro, da placa de platina que tinha numa perna ou dos “dentes lindos, brancos” que o caracterizavam. A história é confirmada por dois funcionários da Junta de Freguesia de São Pedro de Penaferrim, responsáveis pela conservação do espaço e que procederam à exumação dos ossos naquele cemitério.

SUSPEITA DE MAGIA NEGRA

Alberto Lobo já expôs o caso à Junta de Freguesia de S. Pedro de Penaferrim e apresentou queixa ao Ministério Público. “Da Junta dizem-me que não sabem o que aconteceu, que os registos desapareceram e que o cemitério sofre muitos assaltos”, garante Alberto Lobo. “Eu quero saber onde estão as ossadas do meu pai, para poder levá-lo para o jazigo onde está a minha irmã, no cemitério da Guia”, afirma.

Só há uma explicação que pode justificar um possível roubo dos restos mortais do pai: “na magia negra, os corpos de pessoas enforcadas, envenenadas, padres, têm muito valor”, suspeita.

O CM tentou em vão obter mais explicações da Junta de Freguesia de Penaferrim. O presidente da Junta e o responsável pelo cemitério estiveram incontactáveis desde as 17h de sexta-feira.

ABANDONADAS À VISTA

Se já por natureza os cemitérios têm uma aura fantasmagórica, na Amadora o caso tem contornos... do outro mundo. Algumas ossadas, depois de retiradas das sepulturas, são colocadas em caixotes, a céu aberto, junto aos caixotes de lixo. Uma situação testemunhada pelo CM – qualquer pessoa pode apreciar a natureza ‘morta’. “É chocante, não há respeito nenhum”, critica Maria de Fátima Viegas.

A moradora da Colina do Sol ainda hoje está à espera que haja uma gaveta livre para colocar o caixão com as ossadas da mãe. Até que chegue esse dia, Maria de Fátima não tem acesso ao caixão. “Está num depósito, entre o lixo, alguns ferros e madeiras. Não posso velar, nem colocar flores”, afirma.

A mãe, Maria Alves, morreu em Julho de 2001 e foi sepultada na Amadora. Há algumas semanas Maria de Fátima recebeu um postal para a exumação dos restos mortais. Diz que quando procederam ao levantamento dos ossos, ainda havia muitos vestígios do corpo.

“A caveira ainda tinha cabelos agarrados, doeu-me imenso. E depois não lavaram as ossadas, entregaram-mas cheias de terra”, revela. Agora só quer reaver o caixão. “Já apresentei queixa aos serviços da Câmara, mas não me deram resposta”.

OSSOS A 19,95

A exumação de cada ossada no Cemitério de S. Pedro de Penaferrim custa 19,95 euros. Inclui limpeza e trasladação dentro do cemitério. Alugar um ossário custa 29,93 euros e as concessões perpétuas em ossários variam entre os 349,16 euros (1.º e 5.º piso) e os 448,92 (2.º, 3.º e 4.º pisos).

600 EUROS

O preço do metro quadrado no cemitério pode-se considerar elevado. Para colocar um jazigo perpétuo o valor é de 1246,99 euros por um pedaço de 2m2; para quem quer jazigos maiores, há outra modalidade: 2244,59 euros pelos primeiros 3m2. Sepultura eterna custa 997,60 euros.

VEREADOR DESCONHECE

José Evangelista, vereador da Câmara da Amadora responsável pelas Obras Municipais, Ambiente e Higiene, refere não ter conhecimento de ossos que permanecem ao lado do lixo, como demonstra a foto do CM. Considera “não ser de todo natural que se abandonem as ossadas depois da remoção, já que estas têm um tempo de secagem, que tem de ser feito ao ar, num local do cemitério”.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

o que achou desta notícia?

concordam consigo

Logo CM

Newsletter - Bom Dia

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8