O burro 'Justino Leite', baptizado assim em alusão aos ministros da Educação, David Justino, e das Finanças, Manuela Ferreira Leite, veio de mochila. Atrás dele, pela beira enlameada da estrada, seguia uma centena de pessoas, entre crianças e adultos, que se 'puseram ao caminho', para reivindicar a construção da escola 2,3 integrada do Poceirão/Marateca, em Palmela.
Actualmente, 540 alunos a partir dos 9 anos levantam-se às 06h00, apanham o autocarro e percorrem cerca de 40 quilómetros para frequentar estabelecimentos de ensino em outras localidades, como o Pinhal Novo. Este percurso foi ontem feito a pé. Cansados, os mais pequenos aproveitaram, aqui e ali, a boleia de uma carrinha de caixa aberta.
A marcha começou pelas 11h30 nos terrenos cedidos pela Câmara de Palmela para a construção da futura escola, que deverá ser apenas do 1.º e 2.º ciclos, deixando de fora o 3.º, o que indigna a população. “É uma injustiça”, clama José Manuel Silvério, da Comissão Pró-escola do Poceirão/Marateca, adiantando: “Depois de treze anos a reivindicar uma escola de 3.º ciclo, a Câmara Municipal de Palmela parece agora disposta a aceitar apenas o 1.º e 2.º ciclos, alegadamente porque o ministro da Educação terá dito que era a escola do 2.º ciclo ou nada.”
Até ao ano passado, as crianças seguiam a Tele-escola, mas, com o fim desta, tiveram de inscrever-se em outros estabelecimentos de ensino. Os autocarros passam de manhã a recolhê-las e devolvem-nas à tarde ou ao princípio da noite.
Dina Pereira tem uma filha que frequenta o 7.º ano na Escola Secundária do Pinhal Novo. “Apanha a camioneta às 6h45, mas ainda tem de andar três quilómetros até à paragem. Quando regressa, mal tem tempo de fazer os trabalhos de casa e já estou a chamá--la para jantar”, conta, sem esquecer que a filha deve deitar-se muito cedo – “mesmo assim, nunca antes das 21h00” – para conseguir levantar-se de manhã.
Um altifalante montado sobre a cabina da carrinha de caixa aberta inunda o ar com o verso de uma música popular: “Burrico, ai, ai, burrico”. Ante a curiosidade geral, o burro ‘Justino Leite’, que pertence a uma quinta pedagógica e traz uma cauda de palha, mostra nervosismo.
MAIS PROTESTOS
José Manuel Silvério assegura que as acções de protesto terão continuidade. Já no próximo dia 28 será simbolicamente lançada a primeira pedra da escola 2,3 do Poceirão/Marateca. Entretanto, procede-se à tradução, para inglês, francês e alemão, de um texto, a distribuir à porta dos estádios de futebol durante o Euro’ 2004, “para que os estrangeiros percebam que este é um País onde, se quiserem estudar, as crianças são obrigadas a levantar-se às 6h00 e só regressam às 20h00”, explica Manuel Silvério.
Confrontado a propósito pelo Correio da Manhã, o ministro da Educação David Justino disse não comentar os “aspectos folclóricos” da manifestação, afirmando ter já reunido com a directora regional de Educação e a autarquia para debater o assunto.
"AGORA TENHO PIORES NOTAS" (Márcia, 12 anos)
“Tenho piores notas do que no ano passado”, reconhece a Márcia Rosa, de 12 anos, uma das crianças que se levanta de madrugada e regressa a casa à noite. “Nem tempo há para fazer os TPC.”
"DORMIR NA AULA" (Cátia, 12 anos)
A Cátia Costa, de 12 anos, aluna do 7.º na Escola Secundária do Pinhal Novo, admite já ter dormido dentro da sala de aula e diz que, às vezes, estuda para os testes no autocarro.
"FICO MUITO CANSADO" (Rafael, 14 anos)
O Rafael, de 14 anos, a frequentar o 8.º na Escola Secundária do Pinhal Novo, afirma sentir--se “muito cansado” porque tem de levantar-se “de madrugada” e só regressa a casa “quase na altura do jantar”.
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