"Vou para tua casa?”. Um “florinha” mais curioso não conseguiu segurar a pergunta perante as visitas à ‘sua casa’. Tiago (nome fictício) é uma das 25 crianças neste momento a cargo da Associação Protectora Florinhas da Rua, uma instituição que acolhe os chamados jovens em risco.
A tarefa da equipa que aqui trabalha não é só cuidar das crianças, mas também ‘tratar’ as famílias que não estão em condições de o fazer. Nas situações mais complicadas, contam com o apoio de famílias de acolhimento, daí a pergunta do Tiago.
Na “Florinhas da Rua” toda a ajuda é pouca, mas o dia decorre como em qualquer casa. Pequeno almoço, saída para a escola, regresso da escola, refeições, trabalhos de casa e, naturalmente, muita brincadeira. O problema é que estas 25 crianças, com idades entre os 22 meses e os 15 anos, não estão na sua própria casa.
Negligência, maus tratos, alcoolismo e droga são alguns dos factores que levam as suas famílias a serem classificadas como “disfuncionais”. Fazer com que a família volte a ter condições para acolher os filhos é o trabalho da equipa da instituição.
“O que queremos é que as crianças regressem à sua família, só quando é de todo impossível é que procuramos outras alternativas de vida, como a adopção, explica uma das assistentes sociais, Madalena Neves. Por isso,aos fins-de-semana e nas férias os “florinhas” voltam a casa. Para os casos mais graves, a instituição recorre a nove famílias voluntárias de acolhimento, que se dispõem a receber estas crianças.
Conceição Ferreira, a educadora de infância, deixa bem claro que não há expectativa de futuro nestas relações. “É explicado à criança e à família que se trata de um acolhimento temporário e não adopção”.
JORNALISTAS DEITARAM MÃOS À OBRA PARA AJUDAR CRIANÇAS
Os jornalistas não devem ser notícia, mas há excepções. Esta é uma delas. São 51 os profissionais da informação que participam no livro “Curtas Letragens”, apresentado hoje, às 18h00, no Bar BBC, em Belém. Os direitos de autor resultantes das vendas revertem em favor da associação de apoio a crianças em risco “Florinhas da Rua”. Desta vez, os jornalistas não se limitaram a denunciar um drama social. Também deitaram mãos à obra para tentar minorá-lo. No princípio esteve uma ideia de Eduardo Saraiva, homem dos jornais e dos livros: “Na nossa profissão, lidamos diariamente com situações dramáticas. Pensei que deveríamos ser nós a tomar a iniciativa.”
Prova de que “a classe tem consciência social” foi a facilidade com que os profissionais aderiram ao projecto. O abandono e os maus tratos a que são sujeitas as crianças é um dos motivos de notícia que mais dói aos jornalistas. Daí a vontade de beneficiar uma instituição de apoio à infância.
MUITAS HISTÓRIAS DIFERENTES
Os que comprarem e lerem “Curtas Letragens” não vão decerto aborrecer-se, de tal forma são diversas as histórias breves que ali se contam. Eduardo Saraiva imaginou que Jesus Cristo lhe aparecia em casa e iam os dois assistir a um jogo de futebol entre o Sporting e o Benfica.
Os ambientes difíceis em que os jornalistas, por vezes, se movimentam também marcam o livro. O conto de Emídio Fernando (TSF) evoca uma reportagem na Bósnia e Luís Castro (RTP) escreve sobre uma família suicida iraquiana. Sandra Rodrigues dos Santos, uma entre quatro jornalistas do Correio da Manhã que participam no livro, recupera a imagem de certa criança que encontrou durante uma viagem ao Brasil. “Sabia que, se alguma vez escrevesse um texto de género não jornalístico, seria sobre aquele menino.”
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