Juíza diz que “Sotero não matou ninguém, mas mata-se muita coisa com uma violação”. E lamenta só lhe poder dar 25 anos
Henrique Sotero disse em tribunal que escolheu 14 vítimas "jovens e bonitas. E ainda que escolhia Telheiras por se sentir mais confortável. De facto, escolhia um lugar que lhe desse garantias de que corria tudo bem. Não ia violar para o bairro 6 de Maio, na Amadora, onde lhe apontariam uma arma", referiu a juíza Flávia Macedo, ontem, na leitura da sentença. Implacável, revelou que "a soma de todos os crimes", os 71 provados, "dá 230 anos. Se pudesse dava-lhe 110, mas, tendo em conta a pena máxima em Portugal, é condenado a 25 anos de cadeia".
A magistrada justificou-se: "Concordo que não matou ninguém, mas pode--se matar muitas coisas com uma violação". Advogados de 5 das 14 vítimas, assistentes no processo, sorriram, ao contrário do defensor do violador de Telheiras. Sotero não saiu da cadeia para ir à leitura da sentença. Condenado em Lisboa por 71 crimes de violação, coacção sexual, sequestro, ameaças e roubo, terá de pagar 135 mil euros de indemnização às vítimas.
A juíza recusou a tese de comportamento obsessivo-compulsivo: "Quando disse que nenhuma vítima chorou, deu para perceber que é um homem frio e isso é diferente. Aliás, conseguiu perceber a tempo que era procurado pela polícia. Viu que o cerco estava a apertar e então pediu ajuda a um psicólogo para se curar". Por fim, "ninguém é insensível à emoção de um pai e de uma mãe a contar o que se passou. Ninguém merece isto".
LIVRO PODE PAGAR 135 MIL EUROS ÀS VÍTIMAS
A par dos 25 anos de prisão – terá de cumprir pelo menos 16, uma vez que a liberdade condicional só é equacionada aos dois terços da pena –, Sotero terá de pagar 135 mil euros de indemnizações a cinco das 14 raparigas que violou, as que se constituíram assistentes no processo.
Só que o violador não tem bens nem rendimentos para pagar uma quantia, entre 20 a 30 mil euros por vítima, que de resto só pode ser cobrada quando a sentença transitar em julgado. "O pagamento das indemnizações pode ser atrasado se o advogado de defesa recorrer", explica ao CM o advogado Pragal Colaço.
Sotero pode vir a ganhar largos milhares de euros com o livro que está a escrever na cadeia, sobre as experiências que ali vive. Caso alguma editora assuma a publicação da obra, que está a ser feita há vários meses, Sotero vai ganhar parte dos lucros. A não ser que não venda os direitos em seu nome. "Ele pode usar uma estratégia para continuar a dizer que não tem bens que permitam pagar as indemnizações. Basta que ponha tudo em nome do irmão ou da namorada. Eles recebem, mas ele continua sem declarar bens, o que pode adiar o pagamento das indemnizações às vítimas".
"AGORA PODEMOS RESPIRAR DE ALÍVIO"
Cláudia (nome fictício) entrou no seu prédio em Telheiras e viu Henrique Sotero à porta. Pensou tratar-se de um vizinho e deixou-o entrar. Estávamos em meados de 2008. Os dois subiam calmamente no elevador mas o violador de Telheiras rapidamente se revelou – mandou-a calar. Subiram até ao último andar e a jovem, na altura com 16 anos, foi obrigada por Sotero, sob ameaça de uma navalha, a fazer sexo oral. Era virgem. Ontem, a vítima recusou deslocar-se até ao tribunal, mas ficou feliz com a condenação.
"Fez-se justiça", reagiu a vítima, quando soube que o violador tinha sido condenado a 25 anos de cadeia. Três anos depois do pesadelo, superado com a ajuda de psicólogos, a jovem diz que "agora podemos respirar de alívio", referindo-se também às outras raparigas.
Sotero era incapaz de parar de atacar raparigas quando tinha uma tarde livre na ZON, onde era engenheiro. Cerca de um ano depois de ter violado Cláudia, mais uma rapariga de 16 anos foi sequestrada, ameaçada com um canivete e obrigada a fazer-lhe sexo oral.
‘Ana’ ficou sem telemóvel, foi aterrorizada, obrigada a limpar os vestígios de sémen do predador com a própria roupa. Hoje, com 21 anos, a rapariga agradece "o trabalho da PJ e dos advogados" e diz ter sido "feita justiça".
Durante os últimos três anos, as jovens tiveram de ser acompanhadas por vários especialistas. Algumas viajaram até outros países da Europa, outras já estão na faculdade a tentar refazer a vida depois do trauma.
Em tribunal, as que eram maiores de idade mostraram estar ainda em choque. Henrique Sotero mantinha as jovens sequestradas durante longos períodos de tempo, uma delas durante hora e meia. As jovens menores prestaram declarações para memória futura.
IMPUTÁVEL COM RISCO DE VOLTAR A ATACAR
A estratégia da defesa do violador de Telheiras caiu por terra ontem à tarde na sala de audiências da 8ª Vara Criminal, onde Henrique Sotero foi condenado. A juíza Flávia Macedo afastou todas as possibilidades de o violador de Telheiras ter cometido os crimes devido a distúrbios obsessivo--compulsivos no seu comportamento. Mais: o colectivo de juízes considerou que a personalidade do violador não se enquadra na de um psicopata, mas de alguém que possui uma "personalidade ‘borderline’". José Pereira da Silva não quis comentar a decisão. "Eu não falo sobre processos e não vou abrir excepção neste caso", disse ao CM, à saída do tribunal.
Pereira da Silva sempre defendeu que o cliente padecia de distúrbio na personalidade e, por isso, requereu as perícias no Instituto de Medicina Legal. No entanto, os resultados não agradaram a Pereira da Silva: Sotero foi considerado imputável e com risco elevado de poder voltar a cometer novos crimes sexuais.
JUÍZA AMANTE DE FADO E ADEPTA DO BENFICA
Presidente do colectivo de juízes, aos 43 anos, Flávia Veiga de Macedo, adepta do Benfica e amante de fado, não teve contemplações com o violador. Começou a carreira nas comarcas de Elvas e de Faro, passou pelo Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa e agora é juíza titular da 8ª Vara Criminal. Em 2009, condenou Rúben Moreno a 16 anos e meio de prisão pela morte de Euclides Varela no colégio da Casa Pia.
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