A 25 de Março o alpinista João Garcia parte para mais um desafio: escalar a montanha Makalu (8463 metros), localizada entre Nepal, China e Tibete. Desde o acidente no Evereste – em que sofreu queimaduras que levaram à amputação de dedos das mãos e do pés e parte do nariz – os riscos são maiores. “É mais fácil voltar a ocorrer congelamento pois tenho má vascularização nas extremidades. Uso luvas adaptadas e aquecedores químicos”, diz.
Não foi nos cumes do Mundo que o alpinista conheceu a maior solidão, mas no quarto de um hospital em Saragoça, em Espanha, enquanto recuperava do que sucedeu no Himalaia. “A culpa não foi da montanha e sim do homem. Optei por dar uma chance a mim mesmo e continuar a escalar. Tenho limitações mas não são tantas.” A bicicleta, que faz parte da sua preparação física, teve de ser adaptada e nas escaladas usa técnicas para que os instrumentos auxiliares fiquem mais firmes nas mãos, como nós nas cordas. “Por vezes olho para alguém com mãos perfeitas e penso no privilégio dessa pessoa. Mas eu tenho o privilégio de estar vivo, de escalar montanhas e de através delas conhecer outras culturas”, afirma.
Para João Garcia a felicidade não está em conquistar os cumes, mas sim no caminho. “O gozo começa quatro meses antes, na preparação da equipa, na logística. O acampamento é a segunda fase, em que os desafios são adaptar-se ao estilo de vida e ao local e gerir as relações entre as pessoas”, diz. Atingir o cume é o bónus: “Trata-se do dia mais arriscado e longo, com cerca de vinte horas, a maior tensão para o grupo.”
A preparação psicológica e emocional é uma consequência “natural” para o montanhista. Diz que na sua experiência a força mental resulta do treino quotidiano, que reforça o desejo de continuar a subir as montanhas mais altas do Mundo e a realizar os seus objectivos.
“Desistir é o modo mais fácil de resolver qualquer problema. Persisti depois do acidente por mim e também por Portugal. A minha estirpe particular é de lutador. Tenho vontade de superar obstáculos e vencê-los”, remata João Garcia.
UM EXEMPLO PARA OS MAIS JOVENS
Como embaixador da prevenção contra a sida, João Garcia visita as escolas e dialoga com os jovens. Nas palestras dá enfoque à importância dos adolescentes aprenderem sobre o sexo para gerir seus riscos e medos. “Nos meus dias negros no Evereste aprendi que o magnífico da vida não está em nunca cair, mas a aprendermos a levantarmo-nos”, ensina o alpinista. Explica que contrair o vírus da sida não significa a morte e que as pessoas contaminadas “vivem com dignidade”.
O montanhista diz que cometeu erros, seja no desporto ou na vida, e que cometê-los é “normal”. “A partir da minha experiência, das dificuldades que ultrapassei, tento dar exemplos aos jovens, que são o futuro do País”, afirma.
João Garcia nasceu em 1967, em Lisboa. Aos 15 anos começou a praticar escalada no Clube de Montanhismo da Guarda. Competiu em triatlo, desporto que lhe deu preparação física para o alpinismo. Em 1993 fez a sua primeira excursão aos Himalaias. Foi o primeiro português a atingir o cume do Evereste, a 18 de Maio de 1999. O seu próximo desafio é alcançar o cume do Makalu, no Nepal.
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