Coletivo liderado pela juíza Ana Sequeira entendeu que Bruno Pinto não agiu por preconceito, afastando a hipótese de crime de ódio.
O movimento Vida Justa convocou uma manifestação para sábado, em Lisboa, contra a "decisão injusta e desumana" da justiça portuguesa sobre o homicídio de Odair Moniz por um agente policial.
Na segunda-feira, o Tribunal de Sintra condenou Bruno Pinto, agente da Polícia de Segurança Pública, pelo homicídio do cabo-verdiano de 43 anos, baleado na Cova da Moura, no concelho da Amadora (distrito de Lisboa), em outubro de 2024.
Porém, ao mesmo tempo, decidiu aplicar pelo crime uma pena suspensa de três anos e seis meses, considerando ainda que Bruno Pinto pode continuar a ser polícia.
"Não se consegue perceber como é que um homicídio simples, com dolo eventual, de pena de oito a 16 anos, de repente se torna numa pena suspensa três anos e seis meses", questiona Flávio Almada, fundador e porta-voz do Vida Justa.
Assinalando, em declarações telefónicas à Lusa, que "grande parte da população dos bairros considera esta decisão uma decisão injusta", Flávio Almada aponta o dedo à justiça: "Há casos em que pessoas dos nossos bairros são mortas pela polícia e é a vítima que é julgada, é a vítima que é condenada e é a vítima que é desumanizada."
O caso em apreço -- imputa -- "desde o início teve Odair [Moniz] no banco dos réus".
Flávio Almada critica ainda a altura em que a decisão judicial foi anunciada, coincidindo com o primeiro jogo da seleção de Cabo Verde num Mundial de futebol.
"Parece que escolheram mesmo a data, não acredito em coincidências", vinca.
Trabalhador social no bairro da Cova da Moura, o ativista antirracista e rapper (também conhecido como LBC Soldjah) assinala que o protesto convocado para sábado - às 17:00, no Largo de São Domingos, em Lisboa -- extravasa o assassinato de Odair Moniz.
"Não é só por causa desta decisão, é também porque tem um conjunto de situações que levam a que haja mortes desse tipo, à criminalização da nossa comunidade", situa.
As comunidades dos bairros periféricos de Lisboa continuam a ser olhadas como "um espaço onde o Estado de Direito está suspenso", denuncia o ativista, criticando o conceito de Zonas de Impacto Social de Criminalidade, parte da lei de política criminal, que inclui diretrizes para intervir nestas áreas caracterizadas por pobreza e exclusão social.
"É um novo conceito que reforça as Zonas Urbanas Sensíveis, que é repressão, [...] criminalização da pobreza, racialização do crime", aponta.
De acordo com o acórdão do Tribunal de Sintra, a que a Lusa teve acesso, o coletivo liderado pela juíza Ana Sequeira entendeu que Bruno Pinto não agiu por preconceito, afastando a hipótese de crime de ódio, e que quis apenas "concretizar uma detenção legítima".
Por isso, se, por um lado, Bruno Pinto matou Odair Moniz com dois tiros, por outro, "o circunstancialismo da sua ação atenua o seu desvalor, a sua ilicitude, já que o arguido agiu para se defender numa situação de grande tensão e dificuldade, mesmo para um polícia", considerou o tribunal.
"A lista de absurdos no julgamento evidencia que a justiça não escapa ao racismo estrutural", constata o Vida Justa, no comunicado sobre a manifestação convocada para sábado.
A sentença do Tribunal de Sintra "transforma vítimas de racismo e violência policial em culpados", considera, contabilizando que "66 pessoas foram mortas [pelas forças de segurança] nos últimos 25 anos, sobretudo nos bairros", ao mesmo tempo que "a esmagadora maioria dos polícias não foram condenados pelos tribunais".
Apesar de não ter sido condenado a prisão efetiva, Bruno Pinto foi condenado a pagar um total de 90 mil euros em indemnizações: 30 mil euros aos três herdeiros de Odair Moniz pela perda do direito à vida, 20 mil euros à viúva de Odair Moniz e 40 mil euros aos dois filhos de Odair Moniz por danos não patrimoniais.
O polícia terá ainda de pagar uma pensão de 220 euros a um dos filhos de Odair Moniz até este completar 18 anos.
"Sem justiça não há paz", resume o Vida Justa, prometendo: "Não esquecemos, nem perdoamos o assassinato de Odair Moniz."
O Ministério Público já anunciou que vai recorrer da sentença atribuída ao agente Bruno Pinto.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.