Igreja ocultou abusos de frade franciscano português

Caso só ficou conhecido após denúncia à comissão independente. Mas o Vaticano sabia desde a década de 1970. Joseph Ratzinger perdoou o homem.

21 de março de 2026 às 01:30
Vaticano ocultou os abusos sexuais conhecidos desde a década de 1970. Foto: Direitos Reservados
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Foram precisos 66 anos para que os abusos de um frade franciscano viessem a público. Só em 2022 a vítima, abusada quando tinha seis anos, teve coragem para denunciar o que lhe tinha acontecido em 1956. Mas o caso já era conhecido nos meandros da igreja.

Afinal, no início da década de 1970, a denúncia chegou ao Vaticano. Segundo a investigação de cinco meios de comunicação internacionais, foi aplicada uma “pena simbólica” ao religioso. Não tendo ficado proibido de contactar com crianças, o frade foi apenas de poder proibido de confessar fiéis.

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A investigação aponta ainda outro dado: não só não ficou proibido de contactar com crianças, como passou a viver num convento com um colégio frequentado por menores. Acabaria por ter a pena levantada em 1991, pela mão do então cardeal Joseph Ratzinger, mais tarde eleito Papa.

O ‘Observador’, que faz parte dos media que integraram a investigação, teve acesso à carta assinada por Ratzinger. A justificação que o então cardeal deu para levantar a punição? A “benignidade” da Santa Sé em relação ao frade. O religioso acabaria por morrer aos 81 anos.

À data dos abusos, o frade tinha 38 anos. Natural da zona de Torres Vedras, o religioso passou vários dias em pregação popular (ato a que estes religiosos se dedicavam frequentemente) em Torres Novas. Foi numa dessas idas que acabou por abusar da vítima. Os acontecimentos são fáceis de contar: sendo a primeira vez do homem na aldeia, a avó pediu à neta que ajudasse o religioso a chegar à casa onde este deveria pernoitar. Algo que era “normalíssimo”, de acordo com a vítima. A mulher relatou ainda à Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa (CI) que os abusos ocorreram depois do frade estar instalado na casa.

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Aí, terá chamado a criança de volta, para lhe oferecer uma pagela (uma pequena imagem em papel) de um santo, e quando deu por si estava na cama, despida, com o frade a mexer-lhe nas partes íntimas. A mulher referiu ter sido salva “como que por milagre” pela filha dos donos da casa onde o padre se instalou, que voltou atrás para perguntar se tudo estava em ordem.

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