Morreu o "bispo vermelho", a voz que mais falou dos pobres
Foi o primeiro bispo da Diocese de Setúbal e a mais incómoda voz nos anos de crise da década de 80 do século XX.
Morreu serenamente, em casa de familiares, na Maia, depois de ter recebido a Extrema Unção." O comunicado da Diocese de Setúbal, emitido este domingo a meio da tarde, dava conta do falecimento, pouco depois das 14h00, de D. Manuel da Silva Martins, o primeiro prelado da diocese criada por Paulo VI no "verão quente" de 1975.
"Nasci bispo de Setúbal, sou agora de Setúbal. Aqui anunciarei o Evangelho da justiça e da paz", disse no discurso de entrada na diocese, ele que, nascido em 1927, em Leça do Balio, Matosinhos, era sacerdote da Diocese do Porto.
E foi, ao longo de 23 anos, um homem de Setúbal, particularmente na crise da década de 80 do século passado, quando era a voz que mais se ouvia na defesa dos pobres, na luta contra o trabalho infantil e na exigência de habitação condigna para os moradores das barracas da cidade.
Foi desta luta que nasceu o título de "bispo vermelho", com o qual nunca se incomodou. "O Governo de Mário Soares dizia publicamente que em Setúbal não havia fome, que o bispo de Setúbal é que fazia fome.
Todos sabiam que a razão estava do meu lado", afirmou, em entrevista ao CM, pouco tempo depois de ter deixado, a seu pedido, a liderança da diocese, em 1998. Nas últimas duas décadas, viveu discretamente em casa de familiares na Maia, frequentando nos meses de verão o santuário de S. Bento da Porta Aberta, onde ajudava nas confissões.
Funeral
O corpo do Senhor D. Manuel estará em câmara ardente no Mosteiro, a partir desta segunda-feira, dia 25 de setembro, entre as 9h00 e as 24h00, e terça-feira, dia 26, entre as 9h00 e as 12h00. A missa de sétimo dia realizar-se-á no domingo, 1 de outubro, pelas 16h00, na Sé de Setúbal.
Reações à sua morte
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República
"Esteve sempre atento à luta pela liberdade contra a opressão e pela igualdade contra a injustiça, em homenagem ao princípio da dignidade da pessoa."
António Costa, primeiro-ministro
"É com tristeza que recebo a notícia. Referência da consciência social. A melhor homenagem à sua memória é a ação pela erradicação da pobreza."
D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga
"Dom Manuel Martins, descanse em paz. Os pobres e os trabalhadores têm um intercessor no céu: aquele que foi a sua voz na terra."
Padre Manuel Barbosa, porta-voz da conferência episcopal
"Lembro a profunda humanidade, a atenção permanente às pessoas, a intransigência na defesa dos direitos humanos e dos valores do Evangelho."
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