Peritos alertam que abusos na Igreja Católica “não são coisas do passado"
Entrevistadas 75 vítimas de abuso sexual para compensações financeiras.
Rute Agulhas, coordenadora do Grupo Vita, nomeado pela Igreja para receber queixas de abusos sexuais e apoiar as vítimas, referiu esta terça-feira que os "abusos não são coisa do passado" e há registos recentes, de 2023, já depois de o tema estar na agenda pública.
"Persistem assimetrias de poder, perceções distorcidas sobre a figura sacerdotal e resistências culturais que dificultam a denúncia e a proteção efetiva de crianças, adultos vulneráveis e sobreviventes", revela o relatório referente a atividade do grupo no último ano.
Em funções desde maio de 2023, o grupo Vita recebeu cerca de 850 chamadas telefónicas, das quais identificou 154 pessoas vítimas ou sobreviventes de abusos da Igreja.
Destas, 95 pediram uma compensação financeira à igreja, mas em posteriores entrevistas os peritos indicaram um total de 75 casos a serem remetidos para a Igreja para ser avaliada a eventual atribuição de uma compensação financeira.
O grupo termina funções em maio, e ao longo deste período Rute Agulhas considera que na Igreja Católica "a ausência de estruturas uniformizadas, a falta de mecanismos consistentes de prestação de contas e as fragilidades na articulação entre e com Comissões Diocesanas e Institutos Religiosos demonstram que o sistema de proteção ainda não atingiu a maturidade necessária para funcionar de forma autónoma e plenamente eficaz".
"Há uma ideia muito enraizada, em determinados contextos, que os sacerdotes são moralmente superiores e não os podemos contrariar", afirmou a psicóloga, na apresentação, salientando que os abusos "não são apenas de cariz sexual", mas também hierárquico ou laboral.
Isto "reforça a desigualdade de poder e dificulta a denúncia de comportamentos abusivos, a par de uma "descredibilização das vítimas e sobreviventes" e "ausência de estruturas uniformizadas" para as ouvir, acrescentou.
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