Psicólogo analisa triângulo amoroso no 'Secret Story 10': "O conceito de traição depende muito da pessoa e da relação"
Fernando Mesquita explica que a reação de Eva à 'traição' de Diogo pode ser uma estratégia emocional de sobrevivência dentro do reality show.
O mais recente triângulo amoroso do 'Secret Story 10' da TVI está a gerar polémica dentro e fora da casa. Eva e Diogo, namorados há cinco anos até ao término que se deu esta terça-feira, entraram no reality show com o segredo “somos um casal”, o que obrigava ambos a esconder a relação dos restantes concorrentes. No entanto, ao longo do programa, Diogo aproximou-se de Ariana, a quem revelou apenas que tinha uma namorada fora da casa. Entre os dois houve beijos e momentos íntimos debaixo dos lençóis.
Quando o segredo foi finalmente revelado e as imagens de Diogo e Ariana foram mostradas, Eva reagiu de forma surpreendente. Disse que "faz parte do jogo", garantiu que ambos tinham combinado que seria aceitável "um beijo técnico" e rematou com a frase: "Foi o jogo que escolhemos, agora temos de arcar com as consequências." Já Ariana, ao descobrir que Eva e Diogo eram, afinal, um casal, afirmou que "não vale tudo" para ganhar o prémio.
"Dizer que está tudo bem" pode ser uma forma de autoproteção
O CM falou com o psicólogo e sexólogo Fernando Mesquita, para quem a primeira chave para compreender a reação de Eva está no contexto específico em que tudo aconteceu: um reality show sob observação constante e com julgamento público imediato. "Sem dúvida que, por exemplo, para ela seria mais fácil assumir publicamente que tinha sido uma combinação entre os dois, para viver melhor o momento e para não ser, de alguma forma, tão julgada em termos do público", explica o especialista.
Ou seja, dizer que "está tudo bem" não significa necessariamente que esteja mesmo tudo bem. Pode ser, antes de mais, uma estratégia emocional de sobrevivência. "Muitas vezes nós dizemos coisas para nos protegermos de perguntas que, eventualmente, possam vir, mas não quer dizer que não se esteja a sentir, não se esteja magoado com aquilo que aconteceu".
Neste caso, assumir que tudo fazia parte de um plano pode funcionar como um escudo: reduz o impacto, evita a exposição da dor e tenta retirar à situação o peso de uma possível humilhação pública.
Aceitar tudo depressa: maturidade ou sinal de dependência?
Questionado sobre se uma reação tão rápida pode ser sinal de baixa autoestima ou medo de perder a relação, o sexólogo admite essa possibilidade: "Sim, pode ser, sem dúvida, uma questão de dependência emocional."
Fernando Mesquita lembra que há pessoas que permanecem em relações mesmo perante comportamentos tóxicos, precisamente porque existe uma dificuldade em romper o vínculo: "Há, de facto, pessoas que se mantêm em relações não só quando há traições, mas também, às vezes, mesmo algum tipo de violência física ou psicológica, que muitas vezes está aqui associada a uma questão de dependência."
Ainda assim, o especialista faz uma ressalva importante: nem sempre perdoar significa fragilidade. Há casais que permanecem juntos por decisão consciente, por acreditarem que a relação pode ser reconstruída ou porque os limites entre fidelidade e liberdade foram definidos de forma diferente.
Afinal, o que é traição?
Num caso como este, em que Eva garante que o casal tinha combinado aceitar determinados comportamentos, a pergunta impõe-se: houve traição ou não?
Para Fernando Mesquita, a resposta não é universal. "O conceito de traição depende muito da própria pessoa e da relação", afirma.
O especialista explica que, para algumas pessoas, a traição pode incluir até comportamentos sem terceiros, como o consumo de pornografia ou a masturbação; para outras, só existe quando há contacto físico; e para outras ainda, o envolvimento emocional pesa mais do que o sexual. Por isso, no caso de Eva e Diogo, tudo dependerá daquilo que foi realmente combinado entre ambos, antes ou durante o programa.
"Foi combinado" pode ser a narrativa mais segura
Fernando Mesquita considera plausível que, numa situação em que não é possível esconder o sucedido, assumir que foi uma decisão conjunta seja a opção emocionalmente mais segura: "O assumir que tinha sido uma coisa combinada pode causar menos impacto (…) ou pelo menos, no sentido de que vai ser menos julgada pelo público. Mas é a opção mais segura dentro das disponibilidades." Dizer "aceitei" pode ser, assim, menos uma validação do comportamento do parceiro e mais uma forma de não ocupar o lugar de "vítima traída" perante o país.
E Ariana? Há "mais culpado" nesta história?
Ariana sabia que Diogo tinha namorada, embora não soubesse que essa namorada estava dentro da casa. Depois de descobrir a verdade, afastou-se dos dois e afirmou que “não vale tudo”. No entanto, após o término do relacionamento voltou a aproximar-se de Diogo.
Para Fernando Mesquita, mais do que procurar um "culpado principal", é preciso reconhecer que, numa dinâmica destas, todos têm uma quota de responsabilidade, embora em graus diferentes e consoante a informação que tinham.
Ainda assim, o especialista nota que, em muitos casos, quem está “menos errado” é precisamente quem está de fora daquilo que realmente se passa - ou seja, quem não conhece toda a verdade.
Que mensagem passa para quem vê?
Quando um programa transforma uma possível traição em conteúdo de entretenimento, a questão educativa torna-se inevitável. Estará a televisão a normalizar a ideia de que “não vale tudo”, mas quase tudo serve, desde que renda audiências?
Fernando Mesquita recusa uma leitura alarmista. Para o sexólogo, o foco não deve estar apenas na "má mensagem", mas na oportunidade de usar estes episódios para conversar sobre relações, limites, respeito e sofrimento emocional. O especialista vai mais longe e sugere que os adultos, sobretudo pais, devem usar este tipo de conteúdo como ponto de partida para diálogo: "Perguntar o que é que faria nesta situação, se acha correto, e aproveitar esta oportunidade também para falar um bocadinho sobre as relações."
O que diz este caso sobre Eva e Diogo?
Do ponto de vista clínico, Fernando Mesquita faz questão de desmontar um preconceito comum: o de que uma pessoa traída que decide ficar na relação está automaticamente presa por carência, dependência ou falta de amor-próprio. "Não devemos julgar logo que isto é uma questão de dependência emocional ou financeira; é preciso tentar perceber o que é que realmente une aquele casal", afirma.
Para o especialista, uma traição, ou a perceção dela, não significa necessariamente o fim. Em alguns casos, a relação transforma-se. "A relação não vai ser igual àquilo que era, vai ser transformada, e não tem de ser pior nem melhor depois de uma situação destas."
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