"Se calhar não sabem que eu vivo aqui...esquecem-se dos que precisam": ajuda a vítimas do mau tempo demora a chegar
Três meses passaram sobre a tragédia que devastou a região Centro. O vento arrancou telhados e levou famílias inteiras aos desespero. Gente que ficou sem casa, sem emprego, sem nada. E sem voz porque a ajuda prometida tarda em chegar. O CM revisita essas vidas.
Entre casas destruídas, negócios fechados e uma população ainda à espera de respostas, há rostos que continuam a carregar o peso deixado pela tempestade 'Kristin'. Um deles é o de José Botas, que viu a casa, fruto do trabalho de uma vida, a ficar destruída depois de as fortes rajadas de vento arrancarem o telhado e a chuva intensa entrar sem pedir licença. Três meses depois, pouco mudou. Os destroços continuam espalhados, as contas continuam a chegar e a ajuda prometida tarda em aparecer. “Vieram só aqui tirar as coisas lá para fora e não deram nada. Se calhar não sabem que eu vivo aqui...esquecem-se dos que precisam”, desabafa.
José Botas fala com a revolta de quem sente que foi ficando para trás. “Eu acho que as ajudas são precisas no momento exato, não é quanto já morremos ou estamos para morrer... eu era para estar reformado e ainda aqui estou”, diz, enquanto percorre aquilo que resta da casa onde já não consegue viver com a mulher. Agora, o casal está numa casa emprestada, mas continua a pagar despesas da habitação destruída.
Ao longo dos anos, já enfrentou incêndios e outros temporais, sempre com a capacidade de recomeçar. Mas, desta vez, admite que o desgaste pesa mais: “alguém escavaca, mas depois fazemos outra vez. Uma pessoa desmoraliza.”
As imagens daquela noite continuam vivas na memória. José Botas recorda o momento em que o vento entrou pela casa e o medo tomou conta da família. “Nós começámos a ter medo, saímos do quarto e fomos para a cozinha. Não tínhamos força suficiente para segurar a porta.”, conta o homem. Desde então, a sensação de abandono instalou-se.
Mas a tempestade não destruiu apenas casas. Também fechou portas de negócios que sustentavam famílias há décadas. Um desses casos é o de um restaurante familiar da Praia da Vieira, na Marinha Grande, obrigado a encerrar depois de o temporal destruir parte do espaço e danificar equipamentos essenciais. “É um negócio com 55 anos, é basicamente a menina dos olhos deles”, conta o genro do casal proprietário. Desde a passagem da ‘Kristin’, o movimento habitual deu lugar ao silêncio e à incerteza.
Sem respostas rápidas, a família viu-se obrigada a avançar com dinheiro próprio para tentar salvar o restaurante. “Tivemos que nos fazer à vida, tivemos que ir à procura do dinheiro a algum lado.” Entre poupanças gastas e recurso ao crédito, a recuperação tornou-se uma corrida contra o tempo, “se não, vai chegar o verão e não vamos conseguir laborar.”
Tal como José Botas, também neste caso cresce a sensação de que os apoios não acompanham a urgência da destruição. “Quem não ajudou foi quem devia ajudar”, atira Rui Sousa recordando que foram sobretudo voluntários e vizinhos que apareceram nos dias seguintes ao temporal para colocar lonas, limpar os estragos e tentar recuperar o que ainda era possível salvar.
Prejuízos acumulam-se
Os prejuízos acumulam-se, mas as marcas emocionais também. “O primeiro impacto é desolador”, admite uma das responsáveis ligadas a uma empresa de moldes. “Foi olhar para a história da empresa e perceber que estava completamente tudo destruído”, conta Diana Duarte abalada com a destruição causada pelo mau tempo que assolou a região. Máquinas avaliadas em milhões de euros ficaram expostas à chuva e ao vento, comprometendo a atividade da empresa, que três meses depois continua longe da normalidade. Apesar dos prejuízos e da falta de apoios do Estado, a empresa mantém-se em funcionamento parcial, tentando reorganizar-se entre danos, atrasos e incertezas. “Estamos com força para voltar a meter estes equipamentos a trabalhar e a acreditar no futuro”, garante.
Habitação
Ainda há famílias desalojadas
A normalidade continua longe de ser reposta. Ainda há várias famílias desalojadas. Com a ajuda da autarquia, duas delas estão em unidades hoteleiras e quatro agregados familiares estão em habitações modelares. Segundo Paulo Vicente, autarca da Marinha Grande, houve outros casos de famílias que ficaram desalojadas mas que, entretanto, conseguiram recuperar as casas. Este tipo de processos também está a ser acompanhado pela Câmara Municipal.
Apoios do Estado
3365 pediram ajuda
A grande maioria das candidaturas submetidas aos apoios do Estado já foi analisada pela autarquia. Segundo o presidente da Câmara Municipal da Marinha grande, foram submetidas 3365 candidaturas. Apesar dos escassos recursos humanos para efetuar todo o trabalho de análise, autarquia avançou que já foram verificados 3204 pedidos de apoio financeiro. Ou seja, falta analisar 161 candidaturas para completar o processo.
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