Cerca de 28 moradores estão praticamente isolados.
Cerca de 28 moradores do bairro de Olho de Boi, em Almada, estão praticamente isolados, desde que há alguns dias um deslizamento de terras na arriba bloqueou a única estrada de acesso às suas casas.
O Bairro do Olho de Boi é uma zona situada na frente ribeirinha de Almada, no distrito de Setúbal, entre a Fonte da Pipa/Jardim da Boca do Vento e a Quinta da Arealva, e está historicamente associado à Companhia Portuguesa de Pescas (CPP).
Na sequência das tempestades que assolaram Portugal, uma parte da arriba desabou e desde então moradores e proprietários de afamados restaurantes da zona têm apenas como opção descer e subir os 210 degraus de uma escadaria desde a zona ribeirinha até ao elevador da Boca do Vento.
O elevador está avariado desde o dia 02 de fevereiro e o caminho pedonal do ginjal, requalificado recentemente, não é também para os moradores uma opção, uma vez que a tempestade causou igualmente estragos naquela zona tornando o percurso perigoso.
Nenhuma viatura tem agora acesso àquela zona.
André Maia, 30 anos, filho de um funcionário da antiga Companhia Portuguesa de Pescas, é um dos 28 moradores daquele bairro onde vivem pessoas com mobilidade reduzida, com idades avançadas e problemas de saúde que necessitam de acompanhamento permanente.
Em declarações à agência Lusa, André Maia diz que a palavra que encontra para definir o sentimento dos moradores é "abandono".
"Abandono, é isso. Porque as pessoas que moram cá, muitos têm mobilidade reduzida. Por exemplo, o meu pai tem 70% de invalidez, não consegue ir lá acima, e esse era o único apoio mental que ele tinha, ou seja de poder ir ter com os amigos, pelo menos uma vez por semana", disse.
No bairro, explicou, há ainda uma senhora de 97 anos e outra com 93 que precisam de apoio médico, uma delas usa garrafa de oxigénio que vai terminar e não temos como ir buscar outra.
André Maia, que este sábado acompanhou a visita ao bairro por parte do secretário-geral do PCP e dos vereadores da CDU na Câmara de Almada, diz que vai dando apoio aos vizinhos como pode, por vezes a carregar bilhas de gás, ou compras, pelos 210 degraus da escadaria que sobe até ao centro histórico de Almada.
Mas, explica, além destas questões de maior gravidade, também ele sente todos os dias a dificuldade de viver num território agora isolado quando tenta chegar ao trabalho, na zona de Cascais.
Uma viagem que duraria 30 minutos transformou-se num calvário de duas horas.
Maria João Falcão é outra das moradoras do bairro que já foi a voz dos seus vizinhos numa sessão da Assembleia Municipal de Almada, apelando à urgência de serem encontradas soluções alternativas.
Este sábado, junto dos vereadores da CDU, alertaram para o acumular de lixo nos contentores por não haver possibilidade de este ser retirado devido à falta de acesso por estrada, tendo durante as conversas sido colocada a possibilidade de haver um apoio por via marítima ou até mesmo através de uma outra estrada de acesso que está também ela bloqueada por árvores.
Para o secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, que acompanhou a visita dos vereadores ao local, esta é também uma situação que necessita de rápida resolução porque existe uma comunidade isolada.
"Não está isolada pelas cheias, não está rodeada de água, como noutras situações no país, mas as pessoas estão impedidas praticamente de poderem sair e entrar e de fazer a sua vida. É preciso olhar para isto", disse.
Dezasseis pessoas morreram em Portugal continental na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.
O Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
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