Número oficial de portugueses em Andorra desce continuamente há mais uma década, num país que não aceita a dupla nacionalidade.
O número oficial de portugueses em Andorra desce continuamente há mais uma década, num país que não aceita a dupla nacionalidade e onde, apesar de continuar a ser fácil encontrar trabalho, se tornou muito difícil pagar uma casa.
"O problema da comunidade portuguesa é a dificuldade em encontrar habitação. É escassa, é difícil de encontrar e os preços são elevados. A nível laboral, não há neste momento especiais problemas, penso que é relativamente fácil encontrar trabalho em Andorra. Mas se calhar já não é atrativo, pelo custo de vida", disse à agência Lusa a conselheira do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) eleita pelo principado, Sílvia Prada.
Segundo estatísticas oficiais de Andorra, a comunidade portuguesa no país ascendia a 8.428 pessoas no final de 2025, o equivalente a 9,5% da população. As autoridades portuguesas estimam que, porém, incluindo os lusodescendentes, seja o dobro, num país que não admite a dupla nacionalidade.
"Os filhos e os netos, a segunda e terceira gerações, são muitas vezes, mais cedo ou mais tarde, andorranos. E isso significa que desaparecem das estatísticas oficiais", explicou à Lusa o cônsul-geral de Portugal em Andorra, Duarte Pinto da Rocha.
Os portugueses continuam a ser a segunda maior comunidade estrangeira residente em Andorra, a seguir à espanhola (21.013 pessoas), e a emigração nacional para este país nos Pirenéus, entre Espanha e França, tem uma origem antiga, já com várias décadas.
No entanto, a comunidade tem vindo a descer de forma lenta, mas contínua: nos últimos 15 anos passou de 10.832 pessoas (em 2010) para 8.428 (em 2025). No passado, chegou a alcançar as 18.000, num momento em que a população de Andorra rondava os 60.000 habitantes, muito menos dos que os atuais quase 90.000.
O aumento exponencial do custo de vida em Andorra e das casas tem tido destaque na imprensa internacional, como a espanhola. Devido à política fiscal, o país tornou-se um íman para empresários comprarem casa e fixarem residência e, nos anos mais recentes, um polo de atração de famosos 'influencers' ou 'youtubers', sobretudo espanhóis, acusados do outro lado da fronteira de estarem a fugir aos impostos.
Em Andorra há 18 anos e a trabalhar como chefe de obra numa empresa de construção civil, "setor com muitos portugueses", Sílvia Prada garante que "é bastante reduzido o número de portugueses que procura Andorra".
"O número de portugueses não tem aumentado. Às vezes acontece que as pessoas chegam aqui, encontram trabalho, mas não encontram casa. E têm de se ir embora por esse motivo", conta Sílvia Prada, que tem 45 anos e nasceu em Macedo de Cavaleiros.
Mesmo os portugueses que vivem há décadas em Andorra não são, na sua maioria, proprietários de casa e o aumento do preço do arrendamento "parece estar a ter um efeito secundário", o de, chegada a "idade da pré-reforma, começarem a considerar o regresso a Portugal", nas palavras de Duarte Pinto da Rocha.
Se com os dois salários de um casal com filhos é difícil pagar uma casa de família, com o valor de uma reforma é praticamente impossível, como bem sabe e explica à Lusa Emília Ribeiro, 65 anos, há 22 em Andorra e a poucos meses de deixar o trabalho como vendedora na grande cadeia de armazéns do país.
Está também, por isso, a poucos meses de regressar a Portugal, a Esposende, já reformada, embora acredite que, inicialmente, andará "entre os dois países", porque a filha, psicóloga clínica na cidade de Andorra-a-Velha, fica em Andorra.
"Por vários motivos, nunca construí uma casa em Andorra e agora tenho de deixar a casa onde vivo", conta à Lusa, explicando que os 750 euros de reforma (juntando valores de Portugal e Andorra) não lhe permitem continuar a pagar os 950 da renda que tem atualmente. Uma renda antiga e baixa porque já sabe que o dono da casa a vai agora alugar "a 1.500 ou 2.000 euros", num país onde o salário mínimo ronda os 1.450 euros.
"Não dá para viver aqui. Isto é um país para ricos. Há 40 anos, os portugueses ganhavam muito dinheiro, nas obras e outros trabalhos. Agora já não é assim e já não era quando vim. Gasta-se o dinheiro todo", resume.
Emília Ribeiro não é a única portuguesa que trabalha na secção de roupa feminina dos grandes armazéns de Andorra-a-Velha, pelo contrário, a maioria dos colegas no momento em que fala com a Lusa são oriundos de Portugal. E alguns dos que não são já arranham o português à força de tanto contacto com os companheiros de trabalho e à conversa somam-se clientes assim que ouvem falar o idioma.
Emília e os colegas de trabalho são de gerações diferentes, mas quase todos os que falaram com a Lusa têm o plano comum de deixar Andorra em breve.
É o caso de Sandra Silva, de 46 anos, e Pedro Páscoa, de 28, que estão a poucos meses de regressar a Braga e Santa Maria da Feira, respetivamente.
Sandra, em Andorra desde 2004, tem casa própria em Portugal e sabe que os filhos, de 13 e 10 anos, um dia teriam de deixar o principado para irem estudar na universidade, "em Barcelona ou França". Quando chegar a reforma, que prevê "muito baixa para o nível de vida e a habitação" em Andorra, quer tê-los por perto e, nesta idade, ainda irão para onde a mãe os levar ou quiser levar, neste caso, para Portugal.
Já Pedro Páscoa, que fez formação em Teatro na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e é bailarino, tem passado os últimos anos entre Portugal - onde nos meses de primavera e verão percorre feiras medievais com um espetáculo - e Andorra - onde trabalha nos grandes armazéns durante o inverno.
Em abril volta a Portugal e diz que já não volta, não tanto pelo custo de vida, mas porque, apesar de "adorar as pessoas", em especial "as da comunidade", e de ali ter uma irmã, "o país em si" já não lhe "diz nada" e prefere outra qualidade e forma de vida ou procurar novos mundos, com "mais ofertas": "Não fecho as portas a voltar a emigrar, mas não para Andorra".
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.