Ana Ferreira, uma das 250 mil pessoas que sobreviveram ao cancro em Portugal, teve aos 53 anos o primeiro de "dois maus encontros" que quase lhe ceifaram a vida. Ao diagnóstico de cancro no cólon, seguiu-se cirurgia de risco, um prognóstico muito reservado e, nove anos depois, cancro na mama.
As 58 sessões de quimioterapia não lhe retiraram o optimismo que ainda hoje, com 72 anos, a caracteriza. "Tinha um seguro de saúde e, com a família criada e a casa paga, não precisei de recorrer à Banca. Mas a maioria dos doentes não tem essa sorte e encontra inúmeras dificuldades", garante Ana. Já Luísa Costa Macedo conta que, aos 56 anos, foi surpreendida por um nódulo estranho, sinal de um tumor na mama esquerda. Foi no S. José (Lisboa) que fez uma mastectomia, quimioterapia e um implante mamário. Técnica de restauro, perdeu o emprego, mas ganhou a vida. "Sempre encarei bem a doença. Só tenho medo que o cancro seja hereditário porque na família há muitos casos".
Outro caso de sobrevivência: António Santiago tem 56 anos e sofreu um linfoma cerebral. Uma doença que o deixou três anos de baixa. A empresa em que trabalhava na altura em que as enxaquecas denunciaram o linfoma acolheu-o de volta. "Já comecei a trabalhar".
O cancro é a segunda causa de morte nos países desenvolvidos. Jorge Espírito Santo, presidente do Colégio de Oncologia da Ordem dos Médicos, diz que os sobreviventes "não sabem o que vai acontecer, a nível do emprego, relações sociais e actividades correntes. Se quiser comprar uma casa e pedir um crédito ou fazer um seguro, há sempre dificuldades", revelou, na conferência sobre sobreviventes de cancro, realizada ontem na Fundação Gulbenkian, pela Liga Portuguesa Contra o Cancro.
DISCURSO DIRECTO
"ARTICULAÇÃO DE SERVIÇO", Carlos Freire de Oliveira, Presidente da LPCC
Correio da Manhã – O que pode ser melhorado ou corrigido na prestação de cuidados aos doentes oncológicos?
Carlos Freire de Oliveira – É preciso possibilitar a articulação entre os serviços de saúde e criar uma rede de referenciação que englobe os centros de saúde, porque nenhum hospital comporta o seguimento de toda esta população de sobreviventes. Os clínicos gerais têm um papel importante.
– Com essa rede não se perderia o rasto aos doentes, como tem acontecido?
– É incomportável que estes doentes sejam seguidos para toda a vida nos hospitais. Mas os exames podem ser realizados com a colaboração dos médicos de família.
REDE AINDA NÃO SAIU DO PAPEL
O ministro da Saúde, Paulo Macedo, garantiu que está "à espera que a rede de referenciação oncológica seja proposta e efectivamente implementada" pelo director do programa oncológico, Nuno Miranda.
ISENTOS DE PAGAR TAXAS MODERADORAS
O ministro da Saúde, Paulo Macedo, assegurou ontem que a isenção do pagamento das taxas moderadoras vai estender-se aos doentes oncológicos sem sinais da doença cinco anos depois do diagnóstico. Já Paula Teixeira da Cruz, responsável pela pasta da Justiça, garantiu estar disponível para avaliar medidas para que as situações "gravemente lesivas dos direitos" dos sobreviventes de cancro "possam ser colmatadas".
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