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Correio da Manhã

Sociedade
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80 mil fazem chichi na cama

Noite após noite, a história repete-se. A criança não retém a urina, o sono é interrompido e os lençóis têm de ser trocados. Apesar de haver maior prevalência na infância e na adolescência, a enurese pode chegar à fase adulta. Em Portugal, há cerca de 80 mil pessoas a sofrer desta doença, conhecida como o ‘chichi na cama’ ou falha do controlo da micção.
28 de Dezembro de 2008 às 00:30
A enurese manifesta-se mais durante a noite, mas também pode ocorrer numa brincadeira
A enurese manifesta-se mais durante a noite, mas também pode ocorrer numa brincadeira FOTO: D.R.

Para a enurese ser diagnosticada como patologia, os doentes têm de urinar involuntariamente duas vezes por semana durante três meses. Apesar de ser mais frequente à noite, nas crianças pode também chegar durante o dia, quando andam distraídas, por exemplo, com uma qualquer brincadeira.

Há vários factores de cariz psicológico e fisiológico que podem levar a que não haja controlo da urina. Fases de grande instabilidade emocional, como o nascimento de um irmão mais novo, o divórcio dos pais ou a entrada para a escola, podem levar ao desencadear de uma crise.

Há maior dificuldade de tratamento se o problema for fisiológico. Pode haver uma debilidade nos esfíncteres ou bexiga, ou ainda falha na libertação de vasopressina – hormona expelida durante todo o dia e que durante toda a noite é produzida em maior quantidade, o que promove maior dificuldade em controlar a urina.

VERGONHA

"As crianças não querem que alguém descubra, porque os colegas da escola não podem saber. A primeira coisa que tento explicar é que a enurese tem tratamento para retirar a carga muito negativa que isto tem", revela Miriam Gonçalves, proprietária da clínica Pipinho, especializada em enurese.

"As mães vêm cansadas porque têm de se levantar três e quatro vezes por noite para mudar os lençóis e para levarem a criança à casa de banho. Também é a idade em que querem ir dormir a casa de um amigo, ou trazer um colega a casa ou acampar, e não podem porque têm vergonha", acrescenta.

Existem vários tipos de tratamento, mas, para Miriam Gonçalves, o Pipi-Stop é o mais eficaz. "Funciona através do condicionamento do comportamento, que tem um sensor que funciona como um alarme. É um pouco como o cão de Pavlov: sempre que a criança urina, a campainha toca e ela acorda. Assim, é obrigada a ir à casa de banho e urinar", explica.

DIFICULDADES NO TRATAMENTO

Qualquer tipo de tratamento exige que o doente esteja motivado. Para Miriam, o caso mais difícil de resolver ocorreu há uns meses, quando dois irmãos, de 8 e 13 anos, urinavam na cama e não paravam porque achavam normal.

"Falávamos e eles não achavam que faziam nada de mal", diz a psicóloga. "Faziam em acampamentos em casa de outras pessoas e não se sentiam mal. O mais novo porque tinha o exemplo do mais velho e esse porque era uma experiência partilhada", adianta. O caso acabou por se resolver mais uma vez com o Pipi-Stop.

A ponta do aparelho que tem um sensor, segundo explica Miriam, coloca-se nos calções do pijama e o alarme na lapela. Sempre que a criança urina o apito dispara.

QUANDO A ENURESE CHEGA AOS 39 ANOS

Apesar da maior prevalência da doença na infância e adolescência, a enurese pode chegar aos mais velhos. Miriam teve recentemente um paciente com 39 anos. Nunca o viu e só passado algum tempo teve o seu contacto telefónico.

"Disse que encontrou a clínica na internet e nunca estive com ele presencialmente", disse a clínica. O contacto manteve-se e, durante algumas semanas, este homem, casado e com duas filhas, fez o tratamento, estando agora completamente tratado. "Ainda hoje me telefona a agradecer por ter conseguido resolver um problema que para ele era tão difícil de ultrapassar", afirma a especialista.

DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM NA ESCOLA

O controlo total da bexiga pode ocorrer apenas aos cinco ou seis anos de idade. À medida que a criança cresce e aprende a controlar a bexiga, é normal haver épocas em que dormirá tranquilamente a noite toda, sem fazer chichi na cama, e pode igualmente acontecer haver períodos de regressão e enurese. Normalmente, as crianças enuréticas têm algumas dificuldades de aprendizagem. A falta de concentração deve-se ao acordar nocturno, que pode originar problemas de atenção. Ao nível psicológico, as crianças apresentam-se irritadas, rabugentas, envergonhadas e confusas. Sentem-se diferentes dos amigos e não podem participar nas actividades infantis normais.

SAIBA MAIS

CONSELHOS

Alguns conselhos a ser seguidos pelos pais: a criança não deve beber líquidos antes de ir para a cama e deve ser lembrada de fazer chichi antes de se deitar.

5  actos médicos devem ser requeridos pelos pediatras quando há suspeita de enurese: análise à urina, ao historial clínico, ao contexto familiar e psicossocial, exame físico genital e neurológico e raio-X.

77% por cento das crianças em que ambos os pais têm enurese vão acabar por contrair a doença. No caso de apenas um dos pais ter tido enurese, a probabilidade baixa para 44 por cento.

CASTIGO INEFICAZ

Castigar ou envergonhar a criança não adianta e pode piorar o problema e fazer com que a criança demore ainda mais a superar as dificuldades.

CONSULTAS

Há vários hospitais públicos com consulta de enurese, como o D. Estefânea (Lisboa) ou o S. João, no Porto.

O MEU CASO: BEATRIZ

UMA SEMANA PARA A RESOLUÇÃO

"Mamã, quando é que vou deixar de usar fralda à noite?", era assim que todas as noites a pequena Beatriz, de 6 anos, extravasava a sua frustração por repetidamente não conseguir controlar a urina. Desde os três anos que os pais da menina achavam a situação estranha, mas só quando recentemente foram ao pediatra e relataram a situação começaram a actuar. E foi bem rápida a solução.

"O Pipi-Stop foi fantástico. Numa semana resolveu-nos o problema", resume Catarina Ferreira, mãe da criança.

A menina sempre usou fralda e urinava, todas as noites, com grande frequência. "Três vezes por noite tinha de mudar os lençóis. Já não aguentava", desabafa Catarina.

Além de dormir mal, Beatriz tinha ainda de lidar com as brincadeiras dos amigos do infantário. "Muitas vezes, descuidava-se e dizia aos amiguinhos que ainda usava fraldas. E já se sabe que nestas idades as crianças conseguem ser muito cruéis. Ela vinha sempre para casa muito triste", afirma a mãe.

Passado uma semana de início do tratamento, o problema já tinha desaparecido, e ao terceiro dia Beatriz já ia à casa de banho sozinha, mas continuava a dormir com o Pipi-Stop. "Para ela era uma segurança dormir com o aparelho. Ao princípio até se assustou um pouco com o barulho, mas depois, mesmo já não precisando, usava-o, para se sentir mais confortável", disse.

A menina foi ficando cada vez mais autoconfiante e cada noite seca era uma vitória. "Dizia várias vezes: ‘Consegui mais uma noite’", disse, radiante, Catarina.

PERFIL

Catarina Ferreira e a pequena Beatriz, de seis anos, ultrapassaram a enurese no passado Verão. Em pouco tempo e de forma simples, a resolução para o problema foi encontrada. Durante o período em que fez chichi na cama a menina andava mais ansiosa. A cura deixou toda a família feliz e terminou com as noites mal dormidas e sem descanso.

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