Contexto é o das reformas e transformações necessárias para contrariar o ciclo de uma civilização carbónica ou de uma cultura cuja pegada carbónica está "a ameaçar o futuro".
Habituados a surpreender, os arquitetos foram surpreendidos no ano passado com o repto da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, para a construção de uma nova Bauhaus europeia, tendo por desígnio um futuro mais sustentável e inclusivo.
Em junho respondem a esse desafio com uma conferência europeia de políticas de arquitetura no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia, mas no terreno há já vários projetos em curso.
"É de facto um projeto não só inesperado como enormemente exigente", disse em entrevista à agência Lusa o bastonário da Ordem dos Arquitetos, Gonçalo Byrne, a um mês da conferência que decorrerá em Lisboa, sob o lema "Da Bauhaus à Nova Casa - Paisagens Pós-Covid".
Não se trata agora de encontrar um novo estilo de arquitetura, mas de convocar todas as formas de conhecimento para um projeto comum, uma nova vivência no planeta, tentando ao mesmo tempo passar a mensagem de que para a qualidade de vida das pessoas é importante "que haja beleza nas coisas que se fazem no mundo", conforme explicou Gonçalo Byrne.
"Pela primeira vez questões que têm a ver com projetar e construir o futuro da nossa sociedade, da nossa paisagem, do nosso território, das nossas cidades, do espaço público, da habitação, dos edifícios, é colocado de uma maneira tão abrangente e tão alargada", afirmou o arquiteto.
O contexto é o das reformas e transformações necessárias para contrariar o ciclo de uma civilização carbónica ou de uma cultura cuja pegada carbónica estava "a ameaçar o futuro da nossa casa comum ou do nosso planeta de suicídio comum, a prazo", nas palavras do arquiteto.
Muitas destas questões têm vindo a impor-se na agenda europeia e fazem inclusivamente parte das metas do acordo de Paris. Porém, a discussão dos novos paradigmas tem sido dominada por fatores assentes na produção, na economia, na gestão e nas tecnologias, "numa lógica de mercado muito mercantil e tecnocrática", na opinião de Gonçalo Byrne.
"O que está em causa, sobretudo, é começar a abrir a uma dimensão cultural, a uma dimensão que envolve o diálogo com os artistas, com os designers, com os arquitetos e sobretudo que envolve as pessoas. E isto é que é muito importante!", exclamou.
O objetivo é envolver desde os decisores políticos ao cidadão comum: "Toda esta transformação só faz sentido se se traduzir em melhoria de vida das pessoas. A cidade, a paisagem, são sobretudo pessoas".
"Isto implica repensar uma coisa que estava praticamente ausente ou muito ausente desta discussão, que é chamar a cultura, a humanidade da cultura. Isto é dizer as imensas formas de conhecimento ou de sabedoria que existem no mundo e que vão desde os cientistas até à medicina - que entrou em grande força agora com a história da pandemia -, mas também aos artistas, aos poetas, toda esta dimensão que tem estado até particularmente sacrificada com a questão da pandemia e também tem um papel importante a desempenhar aqui", especificou.
Tal como no surgimento da Bauhaus, em 1919, numa Europa a recuperar dos danos da guerra, também agora o mundo enfrenta uma necessidade de reconstrução. "No fundo está-se a falar e a discutir a emergência e a transformação de outros paradigmas, de vida, de habitar, de pensar, de conviver, de integrar".
"A cultura não é só a tradição e o passado. É uma coisa dinâmica e isso é que é fundamental entender", defendeu.
Para o bastonário, a obra dos arquitetos só faz sentido se for vivida e habitada. "Uma vez construída fica, seja uma casa, seja um edifício, seja um espaço público, um território, paisagem".
No âmbito da casa são já notórias algumas transformações, mesmo em programas de habitação acessível desenvolvidos pelas autarquias, como é o caso de Lisboa: "O programa já está a ser equacionado com casas que não eram exatamente aquelas que estávamos habituados a ter".
"São casas que já vão traduzir ou já vinham a traduzir aquilo que durante a pandemia, de repente, toda a gente começou a perceber que era importante; ter espaços exteriores com uma certa dimensão, porque é importante o contacto com o exterior, com a natureza, ter sol dentro de casa, ter espaço. Os quartos se calhar terem um pouco mais de área porque poderão ter de servir não só para dormir, mas também para estudar ou para trabalhar", revelou.
Há aspetos que não estão relacionados apenas com a pandemia, mas com "novos modelos de habitar, de uma maneira muito mais próxima da natureza, mas também traduzindo tudo aquilo que são os desígnios da sustentabilidade, de uma vida sustentável, e isso tem a ver também com a própria maneira de construir, com os materiais que se escolhem", precisou Gonçalo Byrne.
"É uma questão que toca diretamente a arquitetura e os arquitetos, por isso estamos a assistir a uma transição em que temos de estar claramente proativos, abertos, e a contribuir para toda esta perspetiva, que no fundo tem muitas aproximações, eu diria parciais, de tecnologias, de métodos de trabalho, materiais, de modelos de viver e de habitar que, obviamente, estão a ser pedidos ou desejados pela própria sociedade civil", sublinhou.
No centro do debate está igualmente a questão da qualidade. "Erradamente muita gente na sociedade tem vindo a identificar (e até no caso da arquitetura) a qualidade como uma coisa que tem a ver com elites, com quem tem dinheiro, quando a qualidade é uma das reivindicações principais da própria sociedade. É uma necessidade absoluta na prestação dos serviços para a melhoria da vida de toda a gente. Isto veio ao de cima de maneira fulgurante agora com a questão da pandemia, porque quando a população reclama um Serviço Nacional de Saúde, reclama um SNS com qualidade, obviamente".
Segundo Gonçalo Byrne, a mesma lógica deve ser aplicada à forma de habitar, de usufruir de bons espaços, "bons parques, bons sítios onde se possa andar" e até à alimentação, ou seja "poder ter direito a uma alimentação saudável", o que "não tem a ver apenas com custo, apenas com um privilégio, digamos, de uma classe elitista e restrita. Tem a ver com um desejo que é absolutamente partilhado com toda a sociedade e isto faz parte também deste projeto da Nova Bauhaus Europeia".
A Conferência Europeia de Políticas de Arquitetura (CEPA), organizada pela Ordem dos Arquitetos, vai realizar-se a 8 e 9 de junho na Fundação Calouste Gulbenkian, seguindo a tradição de uma iniciativa habitualmente realizada no país anfitrião da presidência do Conselho da União Europeia.
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