Jovens são seduzidos a partir de processos de gamificação online, exclusão social e isolamento.
Investigadores e dirigentes de estruturas de combate à criminalidade alertaram esta segunda-feira para o aumento de movimentos radicais de extrema-esquerda e extrema-direita em Portugal, que estão a conseguir atrair cada vez mais jovens para as suas causas.
No colóquio "Coesão Social e os desafios da polarização urbana: uma estratégia local de segurança", organizado pela Polícia Municipal de Lisboa, investigadores e dirigentes da Polícia Judiciária e do Serviço de Informações e Segurança abordaram o "Panorama Nacional da Radicalização", que tem cada vez mais grupos organizados.
Manuel Gonçalves, Serviço de Informações de Segurança, salientou que os jovens são seduzidos a partir de processos de gamificação online, exclusão social e isolamento, verificando-se uma maior presença de homens em grupos de extrema-direita, enquanto nos movimentos de extrema-esquerda há mais paridade de género.
Nos movimentos de extrema-direita, "há uma maior predominância de homens", com "uma misoginia bastante acentuada" com "pontos de contacto muito grandes com organizações 'jihadistas'" e também "ódio à tradição liberal da democracia".
Apesar disso, não há assim tantos atos violentos "à escala da sociedade portuguesa", salientando que muitos destes movimentos são atraídos por temas isolados, que têm em comum a glorificação da violência.
Para o investigador Luís Tomé, em comparação com os ataques 'jihadistas' ou da extrema-direita, a comunicação social tem sido "mais tolerante" para com os atos violentos da extrema-esquerda, o que conduz a uma aceitação do fenómeno por parte da sociedade.
Citando dados da Europol, entre 2020 e 2024, houve 97 atos violentos perpetrados pela "extrema-esquerda anarquista", em comparação com 68 ataques 'jihadistas' e 17 da extrema-direita.
"Felizmente Portugal não tem muitos exemplos do que se possa considerar terrorismo", mas há "uma tolerância" em relação à violência da extrema-esquerda, ao contrário de outras origens, em que "um incidente radicalizado significa o repúdio coletivo" da comunidade, afirmou o investigador.
Recordando o ataque com uma garrafa de gasolina numa manifestação contra o aborto ou vandalização de espaços públicos, Luís Tomé explicou que muitas pessoas de relevo no espaço público tentam normalizar essas ações.
"Se vemos no espaço pública pessoas que mostram alguma compreensão sobre certos fenómenos de violência", há o risco de um "discurso de aceitação da violência contra os outros", disse.
O investigador deu conta que estes movimentos radicais de extrema-esquerda têm "um crescente número de seguidores" e há sinais de mais radicalismos noutros países.
Atualmente "olhamos lá para fora com a expectativa que não chega cá" esse fenómeno, mas se a sociedade portuguesa não condenar, do mesmo modo, qualquer tipo de violência ou discurso de ódio, "vamos pagar caro", sustentou.
"É preciso que a sociedade repudie todo o discurso de ódio seja qual for o espetro político", defendeu.
Já o investigador Filipe Pathé Duarte salientou que a violência da extrema-esquerda é menos visível que a extrema-direita, mas assiste-se a uma "convergência com o mesmo fim".
No caso da extrema-esquerda, explicou, assiste-se a uma "convergência estrutural entre várias organizações", entre anarquistas ou antissionistas, com movimento que se "vão fundindo e passam a atuar de uma forma muito fluida".
Isso tem levado a "mais ataques, ainda que menos letais" que outros movimentos radicais jihadistas ou de extrema-direita, até porque há um valor social associado.
"É muito atrativo para um jovem fazer combate climático", porque tem resultados concretos para o futuro, exemplificou Pathé Duarte.
Presente no debate, a diretora da Unidade Nacional de Contraterrorismo da Polícia Judiciária, Patrícia Silveira, confirmou que decorrem ""investigações tanto para um lado como para o outro" do espetro ideológico.
"Tratamos tudo de igual forma", resumiu.
"Nem sempre os crimes são causados por radicais ou extremistas, mas todas as causas têm radicais ou extremistas", resumiu Luís Tomé.
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