Tecnologia desenvolvida está "numa fase pré-industrial promissora", sendo que os próximos passos passam por "demonstrar a eficácia a longo prazo em diferentes ambientes marinhos".
Cientistas desenvolveram revestimentos anti-incrustantes de base natural com potencial para substituir os materiais "tóxicos usados na indústria marítima", estando já numa fase "pré-industrial" de produção, revelou esta sexta-feira o CIIMAR -- Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental.
"O novo estudo demonstra que péptidos naturais produzidos por cianobactérias são capazes de substituir biocidas tóxicos que dominam o mercado de tintas anti-incrustantes usadas na indústria marítima", descreve a instituição, que trabalhou em colaboração com as universidades de Lisboa e do Porto.
A bioincrustação marinha ocorre "quando superfícies submersas, como cascos de navios, infraestruturas portuárias ou equipamentos de aquacultura são colonizadas por bactérias, algas e invertebrados" e "representa um dos maiores desafios operacionais e económicos para as indústrias marinhas", explica o CIIMAR.
Tal afeta, por exemplo, "a indústria naval, aumentando os custos de manutenção dos navios, o consumo de combustível e de emissões".
"Na atualidade, a resposta dominante a este problema é o uso de tintas que libertam continuamente biocidas tóxicos (cobre e outros compostos metálicos) impedindo a incrustação", explica.
A tecnologia agora desenvolvida está "numa fase pré-industrial promissora", sendo que os próximos passos passam por "demonstrar a eficácia a longo prazo em diferentes ambientes marinhos".
A par disso, pretende-se "otimizar os processos de produção e incorporação dos compostos a uma escala industrial competitiva".
"A principal inovação deste trabalho está no uso de péptidos naturais produzidos por cianobactérias, que interferem seletivamente nos processos iniciais de colonização biológica, sem prejuízo para organismos não-alvo nem para a biodiversidade marinha", explica a líder do estudo, Joana Almeida.
O resultado é um produto capaz de "controlar eficazmente a bioincrustação marinha sem recorrer à libertação contínua de biocidas tóxicos, abrindo caminho a uma nova geração de revestimentos anti-incrustantes ambientalmente responsáveis", acrescenta a investigadora do grupo de Interfaces Oceânicas Bioinspiradas do CIIMAR.
De acordo com a instituição, apesar da eficácia das soluções atuais, estas "têm um elevado custo ambiental provocando poluição marinha, perda de biodiversidade e degradação dos ecossistemas".
"A ação é tão intensa que alguns biocidas, como o tributilestanho (TBT), já foram banidos pela União Europeia que tem exigido o desenvolvimento de alternativas ambientalmente seguras", indica o CIIMAR.
Assim, para Joana Almeida, "a transição para soluções anti-incrustantes não tóxicas é inevitável face ao enquadramento regulatório europeu".
O estudo permite perceber que "essa transição é não só possível, como tecnologicamente viável", destaca.
O CIIMAR observa que a investigação demonstra que estes péptidos "apresentam um desempenho comparável, e em alguns aspetos superior, ao de um biocida comercial amplamente utilizado na indústria".
Desta forma, a tecnologia "tem o potencial de gerar ganhos económicos diretos para setores como o transporte marítimo, a aquacultura e as infraestruturas costeiras", sustenta Joana Almeida.
"Os impactos positivos estendem-se a setores como a pesca, a aquacultura e o turismo", garante.
De acordo com a investigadora, o potencial do estudo "vai além da investigação fundamental", uma vez que a equipa demonstrou "a incorporação funcional dos compostos em revestimentos".
Com isto, foram validados protótipos "em condições marinhas reais", aproximando a tecnologia de uma aplicação industrial".
"Este avanço representa uma progressão clara do nível de maturidade tecnológica, aproximando uma solução natural de uma aplicação industrial futura", afirma.
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