Segundo Mário Silvestre, o sistema responde e consegue ter uma eficácia de sucesso de 98%.
O comandante nacional de Proteção Civil recusou esta terça-feira falta de coordenação, recursos e capacidade no combate aos incêndios rurais, considerando que a concentração de fogos em dias de maior calor, incluindo à noite, causa "stress significativo" no sistema.
"O problema português, do ponto de vista dos incêndios rurais, não é uma questão de meios, de recursos. É uma questão de número de ocorrências e do tipo de paisagem que temos", disse Mário Silvestre na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aos negócios dos incêndios rurais, sublinhando que 93% dos incêndios são suprimidos nos primeiros 90 minutos.
Segundo o comandante nacional, o sistema responde e consegue ter uma eficácia de sucesso de 98%.
"O que quer dizer que, do ponto de vista da coordenação, porque se assim não fosse, se nós não tivéssemos coordenação, recurso e capacidade para o fazer, não teríamos estas taxas tão elevadas de sucesso", precisou, avançando que a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) tem vindo a verificar nos últimos anos que há um conjunto maior de ocorrências de incêndios nos dias de maior severidade meteorológica e durante a noite.
O responsável sustentou que esta situação "obviamente causa um stress significativo sobre todo o sistema".
"Importa sublinhar um dado operacional relevante. Apesar da diminuição do número total de incêndios ao longo do ano, verifica-se um aumento da concentração de ocorrências nos dias de maior severidade meteorológica, incluindo no período noturno. Em 2025, houve dias em que as ocorrências noturnas representaram cerca de 50% do total desse dia", frisou.
Mário Silvestre explicou que, juntamente com a GNR, a ANEPC tentou mapear essas ocorrências de fogo que tinham início à noite e concluíram que começavam junto a habitações isoladas e aglomerados urbanos.
"Se fosse incendiarismo com dolo não seria ao pé da casa que iriam fazer aquele tipo de ação. Empiricamente, aquilo que nós concluímos na altura foi que são pessoas que, atendendo ao número de incêndios que andam ali à volta, atendendo à comunicação social, atendendo à pressão toda que estavam a sofrer, e ao facto de terem os seus terrenos por limpar, acabavam por queimar deliberadamente o seu quintal, garantindo que se o incêndio chegasse teriam a sua casa salvaguardada", disse.
Esclareceu que esta foi "uma conclusão empírica" que está a partilhar na CPI para dizer que "este é um dos grandes problemas".
Mário Silvestre destacou também que "as condições meteorológicas, aliadas ao estado do território, marcado pelo aumento das áreas agrícolas e florestais abandonadas e pela elevada continuidade de combustível, têm potenciado e continuarão a potenciar incêndios mais intensos, de propagação mais rápida e que, em determinados momentos, ultrapassam a capacidade de supressão do dispositivo de combate".
"Trata-se de uma realidade amplamente diagnosticada, refletida em relatórios e diversos documentos técnicos, mas cuja resolução estrutural tarda em concretizar-se", disse, salientando que os chamados incêndios de sexta geração "são hoje uma realidade incontornável em Portugal e a nível internacional".
Questionado pela deputada do Chega Madalena Cordeiro sobre se o país deve investir mais no combate ou na prevenção, o comandante respondeu: "Temos que investir mais dinheiro na prevenção, mas temos que investir mais dinheiro no combate" devido à severidade meteorológica.
Mário Silvestres defendeu mais dinheiro para o combate devido à necessidade de um modelo diferente para os próximos anos com "mais inovação e conhecimento".
Questionado por vários deputados sobre os meios aéreos de combate a incêndios, o comandante nacional lamentou que Portugal seja "o único país" do sul da Europa que não tenha aviões pesados próprios, denominados 'canadairs', e considerou que o país tem que ter um sistema misto, ou seja, alugados e do próprio Estado.
A Comissão Parlamentar de Inquérito aos negócios dos incêndios florestais, imposta pelo Chega, pretende investigar as causas, a gestão e os eventuais negócios associados aos grandes fogos florestais.
A esse respeito, o comandante nacional disse no início da sua intervenção: "Afirmo de forma clara e inequívoca que não tenho conhecimento da existência de quaisquer negócios ilícitos associados aos incêndios rurais ou às operações de combate, nem disponho de qualquer evidência que sustente tais práticas".
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