Combateu em Angola, Moçambique e na Guiné. Matos Gomes investiga há muitos anos o conflito em que participou e nesta entrevista tenta explicar porque é que fomos para a guerra.
Combateu em Angola, Moçambique e na Guiné. Matos Gomes investiga há muitos anos o conflito em que participou e nesta entrevista tenta explicar porque é que fomos para a guerra.
No fim da guerra colonial havia 8500 a 9000 mortos e 33 mil feridos com gravidade, que deram origem a incapacidades, e “estamos a falar apenas de feridos físicos porque depois há todo o processo do stresse pós-traumático, que é uma área menos quantificável”, diz o coronel Matos Gomes, que entrou em 1963 para a Academia Militar e em 1967 foi mobilizado para Moçambique, junto ao lago Niassa. Em 1969 regressou a África, em Angola, nos Comandos. Em 1971, a sua companhia foi transferida para Moçambique, em Mueda. Regressou a Portugal como instrutor, antes de voltar a África, em 1972, para a Guiné, onde foi um dos fundadores do movimento dos Capitães. Dedicou-se nos últimos anos a investigar a guerra em que combateu.
Há 60 anos qual era conjuntura em Portugal e nas colónias, particularmente em Angola?
Em 1961, sobretudo em Angola, a grande questão que se colocava era a independência do Congo Belga. An- gola ainda tinha governador civil, o Silva Tavares, e uma estrutura militar frágil cerca de 6500 homens, todos baseados no Interior e no Sul do território, porque para o regime as tropas coloniais serviam de reserva para uma eventual terceira guerra mundial. Era a ideia que Salazar tinha.
Entre 1960 e 1961 tinham saído daqui três Companhias de Caçadores Especiais, uma para Cabinda e duas para Angola, já então para garantir a segurança nas grandes cidades e zelar pela ordem pública. No local onde vai de facto começar a guerra, em março de 1961, não havia nenhuma unidade militar, quilómetro de estrada alcatroada, rede de rádio militar ou civil. Os acontecimentos de 4 de fevereiro de 1961 não são ainda terrorismo como se veio a desenvolver posteriormente, são antes uma altercação, uma ação urbana, que se traduz no assalto a prisões e à casa de reclusão militar.
Em Angola vive-se um quase completo alheamento do movimento descolonizador, embora houvesse algum receio provocado pelos acontecimentos no Congo, nomeadamente em Léopoldville [atual Kinshasa]. Mas a situação era tão frágil, inconsciente, digamos assim, que nem sequer havia meios para ir buscar os portugueses que ficaram retidos, presos, na agitação que sucede à independência do Congo, e até teve de ser o engenheiro Jardim, com o desembaraço que tinha, a ir buscá-los ao aeroporto. Portanto, por um lado havia a inconsciência e por outro a completa ausência de meios face a uma situação que era previsível.
A que atribui essa inconsciência?
Ainda em 1959, o ministro da Defesa Botelho Moniz, o ministro do Exército Almeida Fernandes e o subsecretário de Estado do Exército Costa Gomes propuseram uma alteração do dispositivo militar em África e foram criadas as regiões militares de Angola e Moçambique, o comando territorial independente da Guiné, os comandos navais, que nunca tinham existido em Angola e Moçambique, e as regiões aéreas também nestes territórios.
Mas a alteração em termos burocráticos e legislativos, que permite organizar os militares de forma moderna, nunca Salazar deixou que se fizesse porque implicava despesa. Nada foi transposto para o terreno. Há ainda outro aspeto que eu e o Aniceto Afonso [militar que cumpriu missões em Angola e Moçambique, ex-diretor do Arquivo Histórico Militar e coautor, com Matos Gomes, de, entre outros livros, ‘Guerra Colonial’] temos referido que é ter havido a indicação, logo em dezembro de 1960, de que iam ocorrer acontecimentos graves em Angola em 1961.
A primeira notícia que identificámos é sobre a realização de um congresso em Moscovo, onde esse assunto é debatido. Vêm a Portugal emissários dos EUA, nomeadamente o subsecretário de Estado John Brown, para avisar o Governo português de que vai acontecer esse tipo de agitação e que era importante – até para darem argumentos aos americanos para apoiarem a posição portuguesa nas Nações Unidas – que Portugal fizesse um reconhecimento do direito à autodeterminação desses povos. Era apenas isso e, claro, que se precavesse. Nenhuma medida foi efetivamente tomada.
As tropas que vão para Angola, logo em abril e maio, não têm um camuflado, uma mochila ou uma arma automática.
A primeira grande agitação foi logo em janeiro, na Baixa do Cassange, a dos trabalhadores e cultivadores do algodão por causa dos preços impostos pela empresa luso-belga COTONANG, que fazia uma exploração abominável da força laboral. Sabe-se também que vão ocorrer os acontecimentos do 4 de fevereiro porque, nessa ocasião, é preso Joaquim Pinto de Andrade [1926-2008; foi um dos fundadores do MPLA], que era padre em Luanda. Normalmente fala-se do 4 de fevereiro, mas esse dia de violência tem sequência a 6 e 8 desse mês. Temos ainda a prisão dos ativistas, que vai dar origem ao ‘processo dos cinquenta’, em que são presos o Luandino Vieira e o Carlos Van Dunen.
Ainda hoje há várias versões sobre o que é que levou à inação do governo de Lisboa. A melhor resposta é que em 1961, o ano terrível de Salazar – que começa com o assalto ao Santa Maria, os acontecimentos no Norte de Angola do 11 e 12 de março, além dos factos anteriormente descritos, e que vai terminar em dezembro com a invasão da Índia – o presidente do Conselho de Ministros está em grandes dificuldades internas, devido à pressão dos EUA e da Inglaterra, que não apoiam Portugal no caso ‘Santa Maria’, e também do ministro Botelho Moniz, que dará origem ao golpe da ‘Abrilada’ a 11 e 12 de abril de 1961, bem como do antigo Presidente da República Francisco Craveiro Lopes.
Salazar está a jogar a sua permanência no poder e era isso o mais importante para ele. Está a lutar pela sua sobrevivência política. Para Salazar era uma questão longínqua, embora haja planos para colocar as tropas em Angola e a prova disso é que quando é preciso são colocadas muito rapidamente.
Quantos homens?
Os primeiros que vão são unidades de paraquedistas, cinco Companhias de Caçadores Especiais, duas de paraquedistas e no fim de abril, maio, vai o navio ‘Niassa’ com o primeiro contingente de tropas com 1500, 2000 homens fazer a reconquista do Norte. A partir daí começam a chegar sucessivamente tropas a Angola.
As tropas portuguesas estiveram mal preparadas e equipadas?
O exemplo mais chocante é este: as tropas que vão para Angola, logo em abril e maio, não têm um camuflado, uma mochila ou uma arma automática; são armadas com armas de repetição da Mauser. Os graduados levam pistolas metralhadoras. Não há um sistema de rádio de comunicações. Essas tropas levam os equipamentos, as armas e as viaturas que existiam aqui da II Guerra Mundial, provindas do apoio que os EUA deram a Portugal no âmbito da entrada na NATO. Todo o material terá de ser retirado, já durante a administração Kennedy, porque os EUA não autorizavam que o material da NATO fosse utilizado fora do espaço geográfico da organização.
O equipamento era muito mau e as tropas também estavam mal instruídas. Na generalidade desses batalhões, e embora em termos burocráticos tivesse havido uma reorganização dos antigos batalhões de infantaria em batalhões de caçadores, a instrução era dada para guerras convencionais. A única instrução para este tipo de guerra, de contraguerrilha, era dada nas Companhias de Caçadores Especiais que foram formadas no Centro de Operações Especiais, que é uma criação do general Costa Gomes, quando era major e tenente-coronel em Lamego, e em Lisboa, no Batalhão de Caçadores 5. A generalidade das tropas não tinha preparação e iam até fardadas de amarelo.
O apoio soviético aos movimentos de guerrilha acabou por ser crucial?...
No princípio e durante muito tempo, não. As armas da FNLA, que é quem desencadeia os acontecimentos, são canhangulos, que são armas muito primitivas. A FNLA teve armas americanas e belgas porque era fornecida pelo Congo. O MPLA entra na guerra mais tarde e teve sempre pouco armamento, e só em 1968, com a instalação na Zâmbia, passa a ter equipamento soviético e também chinês, checoslovaco e de outros países de leste.
Há também uma noção clara, que começa na Guiné, de que a guerra não é resolúvel em termos militares – e isso é o pior que pode acontecer a uma força armada.
As armas da UPA [anterior designação da FNLA] eram muito primitivas, eram armas de carregar pela boca ou de caça e catanas e é por isso que aparecem nas fotografias, naquelas mais chocantes, os corpos abertos e as decapitações. Nos militares aparecem ferimentos gerais porque os canhangulos eram carregados com tudo o que havia, de pregos a pedras.
Qual foi o fator determinante do curso da guerra?
O cansaço dos quadros portugueses, associado ao desgaste e uma decadência: menos quadros e piores para enquadrar as tropas. O comando e a instrução são cada vez piores e a vontade e o moral também. É o primeiro fator geral. Depois há o fator psicológico que é o que está associado às guerras de longa duração: o cansaço do combatente que não vê um fim para a guerra. Tínhamos tropas de conscrição: os pais já estavam a pensar que os filhos iam para a guerra, os irmãos mais velhos que o mais novo ia para a guerra. Há também uma noção clara, que começa na Guiné, de que a guerra não é resolúvel em termos militares – e isso é o pior que pode acontecer a uma força armada, ou seja, todo o esforço e sacrifício não levam à vitória.
E isso é muito claro no discurso do general Spínola, que passa a ter uma grande difusão e aceitação. Por outro lado, as tropas em África, nos três teatros de operações, começam a sentir que estão em desvantagem tecnológica em relação à guerrilha: a G3 é pior do que a Kalashnikov, as metralhadoras portuguesas piores que as deles, os morteiros deles melhores do que os nossos porque têm um calibre maior, são mais leves e mais manejáveis e, finalmente, a grande questão que é a perda da supremacia aérea com a introdução dos mísseis antiaéreos Strela na Guiné e em Moçambique.
Os militares portugueses passam a ter grandes dúvidas sobre os feridos poderem ser retirados. Nós nem sequer tínhamos contraminas eficazes, a proteção e busca das minas era feita de uma forma assassina ou quase, que era picando o solo, com uma verguinha de aço, até acertar numa mina e a partir daí levantá-la.
Os rádios eram ineficazes porque eram baratos, afinal era mais barato enviar um militar com um camuflado.
Os rádios eram ineficazes porque eram baratos, afinal era mais barato enviar um militar com um camuflado. É por isso que nas suas memórias, tantos se queixam das péssimas condições quer para combater, quer para viver. Isso era desmoralizante e levava a que as tropas se fechassem nos quartéis e que, nas operações, estivessem sobretudo em posição defensiva.
Um grande general sul-africano, o general Fraser, tinha a ideia de que com 30 mil homens em Angola se conseguia fazer a guerra, ora Portugal tinha mais do dobro. As nossas tropas desempenhavam quatro papéis em África: o de ocupação, que a administração pública não fazia; o de administração pública, em que o juiz de paz era o capitão, por exemplo; faziam ainda engenharia, construção de casas, de pontes, de poços, etc., e tinham de fazer também a ação psicológica, conquistar as almas e os corações das populações; e garantir a sua própria sobrevivência, ou seja ir buscar os mantimentos, defender o quartel e fazer operações de segurança e patrulhamento. Mais uma vez, a questão da gestão económica: era muito mais barato ter os militares a desempenhar estes serviços do que montar uma administração pública com civis que teriam de ser pagos.
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