“Crânio bem preservado” permitiu a construção científica do novo busto do monarca que tinha olhos azuis.
“Crânio bem preservado” permitiu a construção científica do novo busto do monarca que tinha olhos azuis.
Para assinalar os 700 anos da morte do rei D. Dinis, foi apresentada a reconstituição científica do seu rosto, no Mosteiro de Odivelas. Mas quem era Dinis, o ‘rei lavrador’, por detrás da face?
“O rei D. Dinis tinha olhos azuis, pele e cabelo claros e não era um homem alto. Teria entre 1,65m e 1,68m”, anunciou a antropóloga forense Eugénia Cunha, na cerimónia onde o busto foi revelado.
O Projeto de Conservação e Restauro do Túmulo de D. Dinis, que permitiu o estudo forense para a reconstrução facial, começou em 2016, em parceria com a Câmara Municipal de Odivelas. “Trata-se da primeira imagem cientificamente fundamentada de um monarca português da primeira dinastia, que o retrata no final de vida”, realça o instituto Património Cultural.
A investigação foi levada a cabo no Mosteiro de Odivelas, onde D. Dinis escolheu ser sepultado.
1 / 4
Mostra-me os teus marcadores genéticos, dir-te-ei como és
O processo de reconstituição foi longo. O túmulo de D. Dinis esteve aberto, entre 2019 e 2023, para extração dos restos mortais, que foram envoltos em tecidos de linho e posicionados de modo a respeitar o esqueleto humano. “Por cima, foi colocada uma cápsula de acrílico e ao lado uma caixa com pequenos fragmentos ósseos”, pode ler-se no site do instituto Património Cultural. Assim, futuras investigações podem ocorrer sem voltar a abrir a arca tumular.
O trabalho científico foi continuado no FaceLab da Universidade de Liverpool, um grupo de pesquisa com foco na análise e reconstituição facial computorizada, com recurso a uma TAC realizada ao crânio do rei.
Através de “um crânio bem preservado, com todos os ossos presentes, incluindo os nasais”, foi possível perceber, entre outras curiosidades, que D. Dinis “tinha todos os dentes à idade da sua morte e só uma cárie", esclareceu a coordenadora do projeto. Outros marcadores genéticos, como a raiz de um dente, fragmentos da falange e do fémur, ajudaram os cientistas a descobrir as tonalidades da pele, dos olhos e do cabelo do rei.
Os olhos claros do rei surpreenderam, uma vez que os retratos que existem o representam com olhos em tons de castanho. Por sua vez, também os cabelos ruivos e claros contrastam com o castanho-escuro das pinturas.
O rei por detrás do rosto 3D
D. Dinis, O Lavrador, O Rei Poeta – muitos nomes caracterizam a figura histórica portuguesa que reinou durante 43 anos, numa época de importantes reformas políticas e administrativas, que se mantêm até aos dias de hoje. Com destaque para a valorização da cultura e literatura, paixão que materializou através da escrita de vários versos.
Vamos recuar até 1261. D. Afonso III, casado com D. Beatriz de Castela, tem um filho varão, ou seja, herdeiro ao trono, ao qual deram o nome de Dinis. Devido à saúde frágil do pai, Dinis começou desde cedo a ser preparado para assumir o título de monarca. E aos 18 anos torna-se Rei de Portugal, dando início a um dos reinados mais relevantes da história do País.
Portugal era um reino estável. Ainda assim o Rei Poeta encontrou algumas dificuldades. Desentendimentos entre o clero e o rei anterior levaram a uma interdição da Santa Sé, em Roma, desde 1267. D. Dinis herdou um reino onde era proibido realizar casamentos pela Igreja e, até mesmo, celebrar missas. As negociações foram longas e complicadas. Contudo, a boa vontade do rei levou o Papa Nicolau IV a pôr fim à situação, em 1290. Isso e as generosas doações e concessão de privilégios a instituições religiosas, como a Ordem da Santíssima Trindade.
E tod’est’ El quis que eu padecesse
Por muito mal que me lh’eu mereci,
E de tal guisa se vingou de mi
Cantiga de Amor da autoria de D. Dinis
D. Dinis também enfrentou problemas internos com a nobreza, principalmente com o seu irmão, o Infante D. Afonso que desafiava continuamente a autoridade régia. O filho bastardo de D. Afonso III desejava subir ao trono, pelo que contestou, sem sucesso, a legitimidade do reinado do irmão. Para evitar os abusos da classe alta, o rei revogou todas as doações feitas e mandou fazer inquirições gerais, contribuindo para o controlo da posse de terras pelos nobres e para o conhecimento do património régio.
Vós mi defendestes, senhor,
Que nunca vos dissesse rem
De quanto mal mi por vós vem
Cantiga de Amor da autoria de D. Dinis
Pelos caminhos de Portugal
Passaram 700 anos desde a morte de D. Dinis e também desde a definição da fronteira portuguesa, consolidada no Tratado de Alcanizes. Naquele dia de setembro, na vila de Alcanizes, a dois quilómetros da fronteira de Trás-os-Montes, o nosso monarca colocou em prática a estratégia diplomática e defensiva.
O Tratado, assinado com o rei de Castela Fernando IV, procurava resolver focos de conflito com o reino vizinho. Após a cedência de ambas as partes, chegou-se a um acordo cujos traços essenciais se mantêm até à atualidade, salvo algumas exceções, como Olivença. Hoje, Portugal pode gabar-se de possuir os limites fronteiriços mais antigos da Europa, com mais de sete séculos de história.
D. Dinis revelou ao longo do seu reinado bastante interesse em conhecer o País. Fez várias viagens para aprender mais sobre as várias regiões do reino. Após Alcanizes, a preocupação do rei passou pela fixação de população nas zonas fronteiriças.
Por todo o reino, o Lavrador apoiou o cultivo e a exploração de terras. Atribuiu privilégios a quem as quisesse trabalhar e mandou drenar zonas alagadiças para criar terras aráveis. Mas ficou mais conhecido pelo pinhal de Leiria ou pinhal do Rei. Os primeiros pinheiros foram plantados em reinados anteriores, porém Dinis foi o seu principal impulsionador. Em vez de plantar pinheiros mansos, plantou pinheiros-bravos, dado que crescem mais rápido.
Cantigas de amigo, cantigas de amor e cantigas do Rei Trovador
O reinado de D. Dinis apoiou o setor cultural, desde a abertura da primeira universidade portuguesa à poesia escrita pelo próprio rei.
A instituição de ensino superior mais antiga de Portugal foi fundada pelo monarca, em Lisboa, local predileto da corte régia. Para estimular o interesse nos estudos, o rei concedeu inúmeros privilégios aos estudantes. A mudança da universidade para Coimbra dá-se apenas no século XVI, por ordem de D. João III.
Amante da língua portuguesa, o rei tornou este idioma a língua oficial dos documentos da chancelaria régia, substituindo o Latim. Além disso, ordenou a tradução de múltiplas obras para português. O seu amor pela cultura não era comum nos reis portugueses. Apesar de ser já o sexto rei de Portugal, D. Dinis foi o primeiro a assinar pela sua mão os documentos régios.
Tal como assinava estes documentos, o Rei Trovador assinou mais de uma centena de poemas e cantigas trovadorescas, distribuídas por todos os géneros - cantigas de amigo, amor, escárnio e maldizer. Sendo a mais famosa:
Ai flores, ai flores do verde pino,
Se sabedes novas do meu amigo?
Ai Deus, e u é?”
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.